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Praedicatho homélies à temps et à contretemps
Homélies du dimanche, homilies, homilieën, homilias. "C'est par la folie de la prédication que Dieu a jugé bon de sauver ceux qui croient" 1 Co 1,21

#homilias em portugues

UM EVANGELHO PARA UMA CATEQUESE SEGURA (Lc, 1, 1-4 ; 4, 14-21)

Walter Covens #homilias em português
3 TOC ev
    Na minha homilia do domingo passado, quando temos meditado no episódio das Bodas de Caná, tive a oportunidade de insistir no carácter ao mesmo tempo histórico e simbólico do evangelho de João. Hoje, no Prólogo do seu evangelho, S. Lucas manifesta a mesma vontade de pecisão histórica, como o lembra também no princípio dos Actos dos Apóstolos (Ac 1, 1) :

« Caro Teófilo, no meu primeiro livro, falei em tudo quanto Jesus fez e ensinou desde o princípio… »

    S. João escreve de manieira idêntica  (1 Jn 1, 1-3) :
« O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos contemplado com os nossos próprios olhos, o que temos visto e que as nossas mãos tocaram, é o Verbo, a Palavra da vida. Sim, a vida manifestou-se, temo-la contemplado, e somos testemunhas : anunciamo-vos aquela vida eterna que estava junto do Pai e que se manifestou a nós. O que temos contemplado, o que temos ouvido, anunciamo-lo também a vós… »

    A nossa fé cristã está baseada sobre factos históricos, e não sobre fábulas, mitos, sobre História e não  sobre « histórias !

« O Verbo fez-se carne e habitou entre nós » (Jo, 1,14).

    A diferença entre João e Lucas é esta : João é testemunha ocular. S.Lucas não o é, mas « informou-se cuidadosamente de tudo desdes as origens », junto « dos que foram, desde o princípio, as testemunhas oculares et se  tornaram servidores da Palavra » afim de que todos possam «  verificar a firmeza dos ensinamentos » recebidos. S. Mateus é o éco da pregação de S. Pedro.

    Se é necessário insistir no carácter histórico do Evangelho de S.Lucas, e dos outros três, é porque disso depende a firmeza da nossa fé. Hoje em dia, é costume opor o « Jesus da fé » ao « Jesus da História ». O « Jesus da fé » não teria nada a ver (ou quase nada) com o « Jesus da História », do qual se pretende que não se possa conhecer muita coisa. O « Jesus da Fé », ele, fica estrangeiro à toda a espécie de ciência, e portanto a toda qualquer credibilidade, dizem.

    Aquela oposição é perigosa, pois provoca a ruína da fé cristã. Conforme uma sondagem, a metade dos Franceses têm a convicção de que a própria existência de Jesus é duvidosa, enquanto que é muito bem atestada. De nenhuma personagem da Antiquidade temos documentação histórica tão abundante. No entanto, há duvidas sobre a existência de Jesus, mas ninguém teria a mínima dúvida acerca da existência de Júlio César. Esse facto deixa-nos a sonhar, mas não é um mero acaso. É mesmo o resultado das numerosas tentativas de destruir a fé, através de « best-sellers » que se seguem por dezenas desde o fim do século 18 até hoje. Pensemos no recente « Da Vinci Code »…

    O cúmulo aparece quando a fé dos crentes se deixa arrastar pela crítica dos descrentes, como se, em vez de chamar especialistas para estimar o valor artístico duma pintura ou duma composição musical, pedissem o aviso de pessoas cegas ou mudas. Os Evangelhos foram escritos por crentes para crentes, portanto um mínimo de fé é necessário para os perceber.

« As dúvidas passam. O Evangelho fica » (R.Laurentin)

    Hoje, as palavras do princípio de Evangelho de S.Lucas são portanto mais importantes do que nunca. Se nos esquecermos delas ou se não fizermos caso delas, a nossa fé cristã já não têm alicerces firmes e há-de desabar mais tarde ou mais cedo.

Issso é, pois, muito importante : a nossa religião não é só mais uma « ideologia », isso é : uma sistematização, cada vez mais contestável, de ideias, talvez muito bonitas ; já no princípio há factos, espantosos mas devidamente verificados e atestados – os evangelhos todos darão a prova disso - : é a vida, a morte, e a ressurreição de Cristo. Todo o « cristianismo » nunca haverá-de fazer outra coisa, a não ser tirar diso as consequências. (A.Feuillet)

    Para perceber isso, é bom ter uma ideia bastante precisa da maneira como que os Evangelhos chegaram até nós.

1. À partida há Jesus, os acontecimentos da vida dele. Não se trata de ideologia, mas de factos, inscritos na História. Esses factos realizaram-se « entre nós » : não por S.Lucas pertencer ao grupo dos amigos de Jesus, mas porque, quando escreveu o seu « Prólogo », ainda havia discípulos vivos.
2. A seguir, há o testemunho dos Apóstolos. Daqueles acontecimentos os Apóstolos foram testemunhas « oculares », não às escondidas, como quem passa depressa, ma sim « desde o princípio », isso é a partir do Baptismo até à Ressurreição.
3. Por causa disso, aqueles que viram tornaram-se « servidores da Palavra », logo a seguir ao Pentecostes : é a « passagem » do « ver » ao « dizer ». Essa passagem é muitíssimo lógica, uma vez que o Jesus que viram é o Verbo Encarnado. Por isso é que Origenes haverá-de dizer :

« Está escrito no Êxodo : ‘ O Povo via a voz de Deus ». Evidentemente que a Voz é ouvida antes de ser vista ; mas isso foi escrito para nos mostrar que, para ver a Voz de Deus, é preciso ter outros olhos ; podem vé-la aqueles a quem isso é dado. No evangelho de S. Lucas, já não é a Voz que é vista, mas sim a Palavra : « os que viram, e foram servidores da Palavra ». Ora, a Palavra é mais do que a Voz. Os Apóstolos portanto viram a Palavra : não por ter visto o corpo do Senhor Salvador, mas sim por ter visto o Verbo.
Se se tratasse só de matéria, Pilatos teria visto a Palavra, e Judas também, e todos quantos gritavam : « Crucifica-o ! ». Ver a Palavra de Deus, o Salvador explica o que é : « Aquele que me vê, também vê o Pai que me enviou ».

4.Estando a Tradição cristã firmemente ligada por essa Palavra dos Apóstolos ao próprio Cristo-Verbo, o papel dela é « transmitir » o que recebeu das testemunhas oculares. E o primeiro trabalho neste sentido é   « escrever sobre isso um relato coerente ». Aqui também, está tudo muito lógico, uma vez que o objecto desta composição são os acontecimentos da vida e da morte de Jesus. O « valor acrescentado », se se pode falar assim, é a composição », a procura da unidade entre fragmentos diversos, o  que, conforme o que diz S.Lucas, já tinha sido efectuado por alguns antes dele.
5.Aquela tradição da Palavra de Deus, encarnada em Jesus Cristo, repetida pelos Apóstolos, há-de encontrar a sua « com-posição » acabada pelo trabalho dos quatro Evangelistas. S.Lucas confia-nos qual foi o seu método : está baseado sobre uma informação « cuidadosa » (« ácribos », de que os péritos tiraram « acribia » para qualificar uma precisão científica !) « de tudo », portanto tão completa como possível, « desde as origens », isso é ,antes do Baptismo, a sua infância. Para isso, S.Lucas vai buscar nas fontes, não só nos « relatos coerentes » já redigidos por outros antes dele, mas também« nas testemunhas oculares », « os servidores da Palavra » que conseguiu encontrar, inclusivamente a Virgem Maria e demais membros da « família de Jesus »…. Tudo isso « para ti, caro Teófilo », o que significa : « para todos os futuros discípulos de Cristo, afim de que percebamos todos a firmeza dos ensinamentos (da catequese - essa é a palavra grega usada por S.Lucas) recebidos.

    O que digo foi confirmado pelas pesquisas de 150 anos de exegese encarniçada acerca da formação dos Evangelhos. Temos portanto que louvar alto e forte, contra ventos e marés, os louvores da autenticidade daqueles escritos essenciais para a nossa fé !

Mas o argumento mais convincente a favor da veracidade histórica fundamental dos Evangelhos fica a experiência que fazemos ; nós próprios, cada vez que somos tocados profundamente por uma palavra de Cristo. « Terá havido alguma palavra, antiga ou nova, que tivesse um poder destes ? » (R. Cantalamessa)


MÃNIFESTAÇÃO EM CANÁ (Jo2, 1-12)

Walter Covens #homilias em português
2 TOC ev
    A seguir à solenidade da Epifania do Senhor, e depois da festa do seu Baptismo, neste segundo domingo do Tempo Comum (que é realmente o primeiro) acabamos de ouvir o relato das Bodas de Caná, no Evangelho de S.João. Esse é o único que fale neste episódio que situa no princípio do ministério de Jesus. Na linha daquele contexto litúrgico, vamos tentar meditar brevemente neste mistério, que é, desde há pouco anos, o segundo mistério luminoso do Rosário.

    Há, pois, um ponto comum entre aqueles três mistérios : o da Epifania, o do Baptismo de Jesus e o de Caná. Qual é esse ponto comum ? A antífona do Cântico de Zacarias do ofício de Laudes da Epifania vai guiar-nos :

« Hoje, a Igreja está unida ao Seu Esposo : Cristo, no rio Jordão purifica-a das suas culpas ; os magos trazem os seus presentes para as Bodas nupciais ; a água é transformada em vinho para a alegria dos convivas, aleluia ! »

    Isso é digno de admiração pela concisão e densidade ! Tudo fica dito, com poucas palavras. Era difícil fazer melhor. A antífona do Cântico de Maria ( o Magnificat), nas Vésperas diz mais ou menos a mesma coisa, com palavras um pouco diferentes :

« Celebramos três mistérios neste dia : hoje, a estrela guiou os Magos para o presépio ; hoje, a água foi transformada em vinho, nas Bodas de Caná ; hoje Cristo foi baptizado por João no rio Jordão para nos salvar, aleluia ! »

    Epifania, Baptismo, Bodas de Caná : esses três acontecimentos são realmente separados no tempo (e no espaço). No entanto, há uma realidade (e quero insistir sobre « realidade ») que autoriza usar da mesma palavra : « hoje » para os três ao mesmo tempo, como se fosse um só dia. Aquela realidade não é um facto, pois são três factos bem separados. Então, o que é ? É da ordem do significado dos factos, do seu simbolismo.

    Mas cuidado ! Hoje em dia, quando se diz « símbolo » ou « simbólico », pensa-se logo em « ficção » ou « factício », um pouco como se diz que alguém cedeu uma terra para uma boa obra por um euro « simbólico ». O símbolo, na plenitude do seu sentido, não é uma ficção.

    O símbolo é uma realidade. É mesmo mais real do que o próprio facto, pois exprime a realidade profunda, e só ele é quem a possa exprimir. A linguagem científica, a que estamos habituados é um « hábito »…), não pode dizer tudo. Tentai dizer na linguagem científica aquilo que sentem um rapaz e uma rapariga quando se tornam namorados. Podeis ser grandes científicos, aqueles dois jovens ficarão de certeza insatisfeitos se vos ouvirem falar assim daquilo que se passa dentro deles : como se vos morassem noutro planeta. Pelo contrário, se falardes como os grandes poetas, os namorados haverão-de correr até à livraria mais próxima para comprar o vosso livro de poemas e pedir-vos-ão para pôr a vossa assinatura.

    Vocês dir-me-ão :

« - É verdade, mas então o autor do quarto evangelho é um poeta que disse numa linguagem simbólica uma realidade profunda … De acordo ! mas os factos que ele relata não são históricos. »

    Um poeta talentuoso, isso é verdade, pode falar numa história de amor que ele inventou, tão bem como se fosse uma história verdadeira, com muita verosemelhança, uma vez que fala num certo quadro daquilo, que outras pessoas, noutros tempos e noutros lugares, puderam viver.

    Assim, a propósito das Bodas de Caná, um autor (J.Potin. « Jésus », 1995) escreveu :
« Para João os milagres não são actos de poder, como para os Sinópticos, mas são sinais, isso é « símbolos (…) O símbolo aparece mais importante do que a realidade dos factos (…) É impossível saber o que aconteceu realmente »

    De acordo com a primeira parte. Mas para a segunda, é verdade para os « apócrifas », mas não é possível para o evangelho de João. Os apócrifas são narrativas mais ou menos factícios, fabricados totalmente, para corresponder a uma necessidade, para ilustrar uma verdade de fé. Gostam muito disso as pessoas ávidas de maravilhoso, que não ficam satisfeitas ao ler os quatro Evangelhos, em especial o que diz respeito à Infância de Jesus. Aqueles escritos descrevem, por exemplo, a Sagrada Família, durante a fuga para o Egipto, a comer frutos das árvores que se inclinavam par permitir a colheita. Ou ainda o Menino Jesus em Nazaré, a transformar as pedrinhas em avezinhas, para espantar os compagneiros (enquanto que João diz que o primeiro sinal foi realizado em Caná).

Mas não é desta maneira que João relata o episódio de Caná. Não nos devemos esquecer de que João pertence ao grupo dos primeiros discípulos de Jesus, que, nas Bodas de Caná, eram cinco, e que, portanto, foi testemunha ocular. João não inventa símbolos fora da realidade. Pelo contrário, fica o mais perto possível dos factos, dos quais percebe o sentido, miraculoso ou ordinário, inclusivamente na Paixão, quando Jesus é pregado e trespassado pela espada do centurião. Com Marcos, João é o mais realista dos evangelistas. É uma testemunha discreta, modesta, anónima, e por isso muito digno de cofiança (R.Laurentin).

    Dito isso, tentemos agora ver o que os três acontecimentos ,( de que já falei, e dos quais falam as antífonas dos cânticos evangelicos da Solenidade da Epifania, como se se tratasse de um só dia) têm em comum.

    Na verdade, trata-se de três epifanias, de três manifestações da Presença de Deus no mundo, mediante factos visíveis.
    A finalidade da criação não é só dar aos homens o que lhes é preciso para as necessidades materiais : comer, beber, etc… E quando almoçais juntos, em família ou com amigos, não é só para satisfazer às chamadas necessidades « primárias ». Para uma refeição festiva, vocês usam duma linguagem simbólica para manifestar o vosso sentido de acolhimento, de hospitalidade, de convivialidade… que nem se comem nem se bebem.

    Ora, Deus também fala-nos por meio de sinais. Falou aos Magos e a cada um de nós por meio duma estrela que dá aos pagãos a possibilidade de descobrir a presença de Deus no coração dum Menino pequenino. Fala-se então duma « teofania », isso é duma manifestação de Deus no nosso mundo.

    Outra « teofania » : no Baptismo de Jesus, é a voz do Pai e a pomba que manifestam o mistério da Santíssima Trindade.

    Em Caná também há uma manifestação de Deus. Issso já está indicado no v. 51 do capítulo 1 : « Vereis os céus abertos e os anjos de Deus a subir e descer por cima do Filho do Homem ». Essa é uma « teofania » anunciada, no futuro. No v.11 do capítulo 2, João precisa : « Ele manifestou a sua Glória » : a « teofania » está cumprida.

    « Ele manifestou a sua Glória e os seus discípulos acreditaram nele » : Isto, evidentemente é só o princípio duma longa caminhada que vai para a casa do Pai, depois de passar pela Cruz. Alguns queriam não só sinais mas provas de Deus. Não ! Deus não se prova. Manifesta-se, isso sim, mas no respeito da nossa liberdade. Somos convidados para as Núpcias do Cordeiro, não somos obrigados. A prova, ao provar, obriga ; o sinal, ao manifestar, convida. Cuidado com a preguice na fé ! Está certo, não somos nós quem vamos transformar a água em vinho. Mas temos que acreditar que Jesus o pode fazer, e que o fará quando quiser, isso é : « hoje ». Aqui está o nosso primeiro trabalho. Naquele trabalho, Maria é a primeira, é mesmo a sua alegria. Mas o nosso trabalho é também tirar a água para encher as jarras, fazer « todo o que Ele (nos) disser » e que não quer fazer em nosso lugar, de o fazer mesmo que pareça totalmente inútil aos nossos olhos. Aqui também Maria é o nosso guia e o nosso modelo.

    Na segunda leitura, S.Paulo diz : « Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito ». Cada um de nós, ao fazer todo o que Jesus nos pede, é chamado a ser uma « teofania em acto ». A teofania de que beneficiamos todos, devemos fazer com que os outros também beneficiem dela, « em vista do bem de todos », diz S.Paulo. Convidados para as Bodas, temos que nos tormarmos serventes das Bodas. Se, diante dum serviço necessário, são sempre os mesmos a responder, não é normal. Nas Bodas de Caná, é aquele que não faz nada que se estraga. Estraga-se também aquele que quer fazer tudo sózinho. « Os serviços na Igreja são diferentes, mas é sempre o mesmo Senhor. As actividades são diferentes, mas é sempe o mesmo Deus que actua em todos ». Há tantos convidados para as núpcias, e os serventes são tão poucos. Há tanta água a tirar para encher as jarras, e tão pouco vinho. Ide ao trabalho ! Não há vinho, há tanta gente com sede, e as Bodas só estão a começar !



OS MAGOS OU O SEGREDO DA JUVENTUDE ETERNA (Mt 2, 1-12)

Walter Covens #homilias em português
epiphanie ev
    Vocês notaram, talvez, que nas minhas homilias desde o tempo do Advento, falei sucessivamente daquilo que diz respeito à vida humana, durante as suas primeiras étapas (da vida do embrião, a seguir da vida das crianças e dos adolescentes (Jesus aos 12 anos). Hoje, celebramos a Epifania do Senhor. Vai ser uma oportunidade para terminar o tempo de Natal com os jovens.

    « Epifania » quer dizer « manifestação », « aparição ». A glória de Deus manifesta-se num menino que é o Verbo encarnado. É uma solenidade ! Entre os nossos irmãos do Oriente, essa festa é celebrada como o verdadeiro Natal. Na verdade, a figura dos Magos, no evangelho desta solenidade da Epifania, apesar de parecer de pouco significado, longe de ser uma mera presença sem  qualquer importância, desempenha um papel importante na vida da Igreja, e na vida de cada um de nós.

    No entanto, só o evangelho de S.Mateus fala nos Magos… e só diz pouca coisa a propósito deles. Não diz donde vêm – a não ser do « Oriente » -, nem como se chamam, nem quantos são. Mateus fala para judeo-cristãos perseguidos pelos Judeus : quer mostrar-lhes que Jesus é realmente o Messias e que na visita dos Magos se realiza a profecia de Isaías : « As nações andarão à tua luz e os reis na tua  claridade nascente », e também o Salmo 72 : « Os reis mais longínquos, prostrados diante dele, os de Tarsis e de Saba, apresentarão as suas ofertas e tributo ». Por isso foi que a piedade popular, que não se deve menosprezar, haverá-de os chamar, não sem razão « Os Reis Magos ».

    A lenda haverá-de dizer que vinham da Pérsia. O simbolismo das prendas foi rapidamente interpretado : o ouro para a realeza de Jesus, o incenso para a sua divindade, a mirra para a sua humanidade. Foi Tertuliano (160-225) quem, o primeiro os tratou de « reis » (ao que parece). Origenes (185-250) adoptou o numero de três. Os nomes deles – Melquior, Baltasar, Gaspar- aparecem no século VII. No século XV, atribuiram-lhes origens étnicas diferentes : o branco Melquior, o amarelo Gaspar, e o preto Baltasar : é um simbolo do genero humano inteiro. Linda lição de anti-racismo ! Podemos ver também neles aqueles que reconciliam as gerações : foram representados nas três idades da vida : juventude, maturidade, velhice…

    Conforme algumas tradições, os Magos teriam sido baptizados pelo Apóstolo Tomás. Os corpos deles, levados do Oriente para Constantinopla por Santa Helena (IV° Século) teriam sido transferidos numa igreja de Milão. O arcebispo de Colónia obteve o direito de recuperar as relíquias deles para a sua catedral S.Pedro. Uma parte haverá-de ser mais tarde restituida a Milão. Estudos mostraram que as relíquias de Colónia são do princípio da era cristã e tem por isso uma grande probabilidade de autenticidade.

    Cheguemos agora aos jovens, e lembremo-nos de que João Paulo II tinha convocado os jovens do mundo inteiro em Colónia para as JMJ. Afinal Bento XVI foi quem realizou o desejo de J.P.II e foi como Papa na sua própria pátria. Por esta ocasião, tinha declarado :

« A cidade de Colónia não podia ser o que é sem os Reis Magos, que têm tanta influência na sua História, na sua cultura e na sua fé. Aqui, a Igreja celebra, durante todo o ano, duma certa maneira, a festa da Epifania ! Por causa disso foi que, antes de vos dirigir a palavra, eu quis recolher-me alguns instantes diante do relicário dos três Reis Magos, dando graças ao Senhor pelo seu testemunho de fé, de esperança e de amor. Levadas de Milão no ano de 1164, as reliquias dos Magos, escoltadas pelo Arcebispo de Colónia, Reinald von Dassel, atravessaram os Alpes antes de chegar à Colónia, onde foram acolhidas com grandes manifestações de alegria. A seguir, transportadas para vários sitios da Europa, as relíquias dos Magos deixaram marcas evidentes que ainda subsistem nos nomes de lugares e na devoção popular. Para os Reis Magos, os habitantes de Colónia mandaram fazer o relicário mais precioso de todo o mundo cristão, e como isso não chegava, ergueram por cima dele um relicário ainda maior, esta magnífica catedral gótica que, depois das feridas da guerra, se oferece novamente aos olhos dos visitantes com todo o esplendor da sua beleza. Com Jerusalém, a « Cidade Santa », com Roma, a « Cidade eterna », com S.Tiago de Compostela na Espanha, Colónia, graças aos Magos, tornou-se, ao longo do tempo, um dos lugares de peregrinação mais importantes do Ocidente cristão. »

    O tema escolhido para estas JMJ – «  Vamos adorá-lo »- continha duas imagens importantes. Em primeiro lugar a imagem da peregrinação « VAMOS… », é a imagem do homem que, ao olhar para além das suas ocupações e do dia a dia, começa a procurar o seu destino essencial, a verdade, a via justa, de Deus .Numa sociedade em que o poder de compra é rei, essa prioridade está muito em perigo !

    Aquela imagem do homem em marcha para a meta da sua vida continha ainda duas indicações claras. Havia, em primeiro, o convite para não ver o mundo que nos envolve só como a matéria com que podemos realizar alguma coisa, mas ainda para procurar descobrir nele a «caligrafia  do Criador », a causa criadora e o amor donde nasceu o mundo e de que nos fala o universo, se formos atentos, se os nossos sentidos interiores  se acordarem e adquerirem a percepção das dimensões mais profundas da realidade.

    Outra imagem contida no tema das JMJ : o do homem em adoração : « Viemos ADORÁ-LO ». Antes de toda a actividade e de toda a transformação do mundo, é preciso ADORAR. Só ela nos torna verdadeiramente livres ; só ela nos da critérios para agir. Precisamente num mundo em que os critérios de orientação chegam progressivamente a fazer falta, em que existe a ameaça de que cada qual invente  o seu próprio critério, é fundamental salientar a adoração. Para todos quantos estavam em Colónia para as JMJ, o silêncio intenso de um milhão de jovens no momento em que o Senhor estava exposto no altar fica inesquecível.

A reacção contra um mundo  cheio de barulhos e à procura de silêncio, um mundo desnorteado em busca de sabedoria, influencia o sucesso obtido por filosofias extremo-orientais. Mais profundamente, esse manifesta uma sede muito tempo recusada de transcendência, da busca de ordem realmente mística. Por causa disso, ele é o sintoma duma carência grave no cristianismo ocidental contemporâneo. Este, não tendo oferecido muito o melhor da sua própria tradição espiritual, era inevitável que as pessoas busquem sucedâneos. Entre quantos meios cristãos a « mística », num sentido sempre pejorativo, não era estigmatizada como perigosa ? (« Des bords du Gange aux rives du Jourdain », p. 5-6)

    Nunca me esquecerei da censura do pároco da paróquia onde estive durante um ano ( era o primeiro ano do meu sacerdócio !) : « Sabes, aqui, as pessoas não são místicas ! ». Mas, quando tive de deixar essa paróquia, por causa de ser nomeado pároco noutra, uma paroquiana tinha-me dito : « Senhor Vigário, obrigada ! Ensinou-nos a rezar novamente ». E verificamos tantas vezes que, em muitas igrejas, os padres já não expõem o Corpo do Senhor à adoração dos fiéis, e que, ao entrar numa igreja os católicos não fazem mais a genuflexão e ficam de pé na consagração, quando não estão sentados…

(…) Numa palavra, depois de privilegiar o empenhamento socio-politico e a eficácia da acção (isso, é verdade, em reacção contra uma época de « devoções » destacadas do real : caricaturas duma espiritualidade autêntica), em detrimento da adoração contemplativa, deixaram morrer de sede os nossos irmãos, junto a poços cuidadosamente barricados. Pôr-se a caminho das nossas fontes, essa é a melhor maneira de responder às aspirações religiosas do homem ocidental ». (Des bords du Gange… » p. 5-6)

    Escutemos portanto o aviso de Isaías, antes que seja tarde demais par nós. Já é tarde para tantas crianças, jovens adultos, caídos no desespero, e depois na morte, por falta de adoração (cf. o livro profético do Padre Molinié : « Adoration ou désespoir »

« Porque este povo não quer as águas de Siloé que correm docemente, as águas poderosas e fundas subirão do rio : do seu leito, ele sairá, passará por cima das ribas, inundará, trasbordará, submergirá toda a superfície do teu país. » (Is 8, 5-8)

     S. Paulo precisa de que rio se trata :

« O Espírito anuncia claramente que, nos últimos tempos, abandonarão a fé, por se ter deixado guiar no erro por espíritos falsos e por falsas doutrinas vindas do demónio ». (1 Tim 4, 1-2)

    Alice BAILEY pessoalmente, e sabia de que falava, confirmará contra a sua vontade :

« Lucifer é quem reina sobre a humanidade… pelo menos, ele é a estrela que a guia ; ele é a estrela que guia actualmente o movimento New Age. »

    A cada qual a sua estrela…

    No seu livro, « Christian response to the occult », Tom Poulson escreve :

« Quem chegar ao degrau de cima da Maçonaria verá que se trata de adoradores de Lucifer. »

    Sim, como o milhão de jovens presentes em Colónia o podem atestar , João Paulo II  tinha razão quando escrevia : « Temos que confessar que precisamos todos daquele silêncio cheio da presença divina ». (Orientale lumen, 16)

    Como ele , como eles, ponhamo-nos à escola dos Magos, para que nos ensinem o segredo da juventude eterna, que também é o segredo da « muito grande alegria » (Mt 2,10)

SÃO JOÃO BAPTISTA, SERVIDOR DA VOSSA ALEGRIA ( Lc, 3, 10-18)

Walter Covens #homilias em português
3 avent c 1lecbis
O Cardeal Ratzinger publicou no ano de 1988 um opúsculo sobre a espiritualidade sacerdotal. Deu-lhe o título de « Diener eurer Freude », « Servidores da vossa alegria, meditações sobre a espiritualidade sacerdotal ». « O fio condutor  destas meditações, escreve, é a alegria que vem do Evangelho. Por isso espero que esse opúsculo possa contribuir um pouco ao ‘serviço da alegria’, e asdim responder ao sentido profundo da espiritualidade sacerdotal ». Espontaneamente, cada vez que ouvimos falar em alegria, até no sentido biíblico, não pensamos logo em João Baptista. Entre as duas primeiras leituras e o Cântico de Isaias, e o Evangelho, que relação ? No entanto, João Baptista disse assim : « O esposo é aquele a quem pertence a esposa ; quanto ao amigo do esposo, está cá, ouve a voz do esposo e fica muito alegre. Essa é a minha alegria, e estou muito satisfeito ». (Jn 3, 29). S.Lucas mostra-no-lo vibrante de alegria enquanto está no seio da sua mãe (1, 44)


Hoje é o Domingo da alegria (« Gaudete »). Mais uma vez encontramos a figura de João Baptista que S.Lucas sublinha particularmente ao mostrar ao mesmo tempo a sua grandeza e a sua inferioridade, ou melhor, a sua subordinação a Jesus. A grandeza de João é precisamente não fazer sentido, a não ser em relação ao Messias cuja vinda há-de preparar. No Domingo passado, com João Paulo II, tivemos a oportunidade de olhar para ele, como sendo o modelo dos catequistas. Por altura do grande Jubileu do ano 2000, dizia-lhes :

« Na pessoa de João Baptista, encontrais hoje os sinais fundamentais do vosso serviço eclesial. Em frente dele, ficais animados a efectuar uma verificação da missão que a Igreja vos confia ». Quem é João Baptista ? Antes de mais nada, é um crente empenhado pessoalmente num caminho espiritual exigente, feito duma escuta atenta e constante da Palavra de salvação . Além disso, é testemunha dum estilo de vida desprendido et pobre ; mostra uma grande coragem ao proclamar a todos a vontade de Deus, até às consequências mais extremas. Não caí na tentação fácil de desempenhar um papel de primeira, mas humilia-se para exaltar Jesus.

Hoje, João Baptista apresenta-se como modelo dos Apóstolos e dos Mensageiros que o Senhor manda « por grupos de dois diante dele por todas as vilas e localidades aonde ele próprio queria ir » (Lc, 10, 1). Os Apóstolos são doze, os enviados do capítulo 10 de S. Lucas são setenta e dois . Portanto, João é só e único, o primeiro duma multidão. É o mestre da sua aprendizagem. Ao mandar os Doze, e depois os Setenta e dois, é como se Jesus lhes dizesse :

« Agora, é a vossa vez de fazer como fez João Baptista para mim ! João formou-vos, caros João e André ! Agora, fazei como ele fez. Ele já está no céu ; agora sois os sucessores dele, sois a continuação dele. Sereis vós também os meus pequenos precursores. O que foi João, vós o sereis por vossa vez ! » (Padre Daniel-Ange)


Os Apóstolos repetiram isso àqueles que escolheram para continuar a missão recebida. Tito, Timóteu e os demais. Se os Apóstolos são o « tipo » do pregador, João é o « protótipo ».

Para nos limitar ao trecho do evangelho que acabamos de ouvir, eis os pontos essenciais da pregação de João Baptista, que são de salientar.

Em primeiro, João é um pregador universal. A missão dele vale para todos os tempos e todos os países. Ele fala para todos, não só para uma categoria de pessoas. S.Lucas mostra bem isso ao enumerar os vários grupos de pessoas que fazem sempre a mesma pergunta : » O que é que devemos fazer ? » (cf. Ac 2, 37 : é a mesma pergunta que será provocada pela pregação de Pedro, no dia de Pentecostes, quando está reunida uma multidão vinda de todo o Império). Há em primeiro « as multidões » sem precisão, a gente do povo ; a seguir, os « publicanos », empregados dos impostos, odiados pelo povo, mais do que os fiscais de hoje, uma vez que colaboravam com os « ocupantes romanos » ; afinal, os soldados, pouco amados também, pois a profissão deles era interdita aos Judeus, (talvez eram mecenarios pagãos, ao serviço de Herodes Anttipas). É verdade, « qualquer homem verá a salvação de Deus » (v. 6) !

A pregação de João atravessa os séculos e as fronteiras. Não tem nada de comum com a espiritualidade dos « Essénios » (= os « filhos da Luz »-, uma seita que se julgava a fina-flor da espiritualidade do tempo e que tinha fugido o « mundo mau », proclamando que só eles haviam-de ser salvos. Nada a ver também com os « fariseus » (= « os separados») que, apesar de não irem para o deserto, viviam num desprezo total para com aquela « escória » de pecadores. João só foi para o deserto afim de melhor se preparar para ir aos pecadores de toda a espécie.

É de notar também que João, apesar de viver como um asceta rigoroso, não começa por impor exigências muito severas aos que vêm a ele. Não lhes pede para comer como ele, nem para se vestir como ele. Mas, por outro lado, não gostava de mediocridade. Não ! Não julga a moral como coisa de pouca importância, especialmente no que diz respeito ao dinheiro, o « nervo da guerra ». Notastes como, na sua resposta à pergunta « O que é que devemos fazer ? » só fala no uso correcto da riqueza (v. 10-1111) e no perigo de se tornar rico injustamente (v. 12-13 ; 14) ?

Pelo contrário, não pede para mudar de profissão, nem aos publicanos sequer, nem aos soldados. S.Lucas não fala aqui nas prostitutas que não aparecem… Aos « pornocratas » de hoje, João teria ,com certeza, respondido outra coisa !  Além disso, que teria dito a todos quantos olham o dinheiro como seu deus, sacrificando tudo afim de obter lugares « imortantes » e obter promoções profissionais, ao preço de muitos sacrificios, incluido o tempo devido a Deus (por exemplo, a missa dominical) bem como à sua família ?

Coisa importante para o nosso tempo : a sua moral não é só uma moral individual (ou individualista). A pregação dele dirige-se a grupos de pessoas , à profissões, ao Povo de Deus na sua totalidade, à sociedade toda. A conversão exigida não é só  a das pessoas na sua individualidade. Tem uma dimensão social.

O ecrã entre o homem e Deus, escreve o cardeal Daniélou, não é só a má vontade individual ; é também ume espécie se « sedimentarização » sociológica constituida por um conjunto de costumes e de compromissos, tanto mais difícil de conhecer que tem um carácter colectivo.

« Toda a gente faz assim »… Desculpa bonita ! A palavra de João, hoje, se dirige por exemplo aos polícias, aos guardas-republicanos, aos militares, bem como aos « pequenos » e grandes roubos, aos juizes e aos advogados, aos sindicalistas como aos empresários. Dirige-se à multidão dos cristãos que vivem na tibieza. Dirige-se também à totalidade da sociedade que, aos poucos, se tem « mediocrizada », a todos quantos, na Martínica e noutros lugares, adoptaram como palavra de ordem : « Débouya pa péché » (o que quer dizer na lingua da Martínica : « O desembaraçar-se não é pecado »), mediante algumas excepções por um lado, um compromisso por outro lado, com algumas pequenas cobardias… e generosidades do mesmo tamanho. Mas quando se trata de prestar serviço, de assumir uma responsabilidade para o bem comum, de responder a uma chamada ao socorro, então, de repente, já não se « desembaraçam », mas encontram, isso sim, muitas desculpas para fugir…

João faz uma chamada que soa como que um grito de alarme ao ver aquela multidão enorme que não espera por isso e se arrasta na sua existência medíocre no momento em que vai ter que se encontrar frente ao esplendor deslumbrante, maravilhoso, ardente da Glória (Daniélou).

João não impõe nada, não tem medo de propor. Não obriga, mas desperta ímpetos de conversão. Consegue encontrar falhas no muro de betão armado que nós elevamos para nos tornar impermeáveis às propostas do Amor misericordioso do Cordeiro. Não desanima diante do revés e da adversidade. Não tem medo de desagradar, pois não quer agradar. Continua correndo até ao fim. A sua pregação é suave e violenta ao mesmo tempo. A sua cólera só é o outro lado do amor. Desaparece diante de Cristo, mas a humildade dele não o impede de falar com autoridade.

Assim, João há-de denunciar sem cessar a vinda do Inimigo, o mal presente. Mas sempre e só com o fim de anunciar, de proclamar, de testemunhar.

Hoje, mais do que nunca, neste princípio do milenário, os profetas precisam dessa coragem, para diagnosticar o mal, dar nome ao erro, avisar do perigo, estigmatizar o inimigo, descobrir os seus ataques e afastar os seus estratagemas. Isso faz parte do papel de « araúto de verdade » no qual João é o nosso Mestre.

A Misericórdia não se terá batido de mãos nuas contra o Ódio, para arrancar os seus filhos às garras dele ?
Hoje mais do que nunca temos que gritar para salvar as crianças e os jovens de todo aquilo que os destroí, os perverte, os mata….. Caso contrário ficaremos com sangue nas mãos. (Pe Daniel-Ange)

João-Baptista, servidor da nossa alegria ? Sim, mas não duma alegria fácil, da alegria de Deus. É mesmo a alegria da Encarnação redentora. Peçamos aquela graça ao Senhor por intercessão de João-Baptista, e rezemos para que os pregadores do Evangelho sejam, como ele, ao serviço da verdadeira alegria de todo o povo : « Dirige a nossa alegria para a alegria dum Mistério tão grande … » (oração da abertura da missa).

SÃO JOÃO BAPTISTA, PADROEIRO DOS CATEQUISTAS ? (Lc 3, 1-6)

Walter Covens #homilias em português
2 Avent C 1lec
    « A palavra de Deus foi dirigida no deserto a João , filho de Zacarias » . O Evangelho deste dia, bem como o do domingo que vem, apresenta-nos a figura de João Baptista. Aliás, é todo o tempo do Advento que está repleto da presença desse santo que, com o « bom ladrão » é o único que foi canonizado pelo próprio Jesus. Também é, com a Virgem Maria, o único santo que seja celebrado, fora do tempo do Advento, não só pela sua nascença no Céu (dia 29 de Agosto), mas também pela sua nascença na terra (24 de Junho). No entanto, com o Padre Daniel-Ange, « fico dolorosamente surpreendido ao verificar como João está pouco conhecido, pouco celebrado, pouco amado dentro do povo cristão, talvez sobretudo no Ocidente » ; parece que a importância que lhe dá a liturgia não encontra eco algum no coração dos cristãos.

    Há também, é verdade, pessoas a ser zelozas demais . Da comunidade formada à volta de João Baptista, nasceu uma religião muito minoritária que o confessa como único profeta e julga Jesus Cristo, e também Mafoma (em francês : « Mahomet ») como sendo usurpadores. (Aquela religião tem a obrigação de viver junto dos rios, afim de poder baptizar os fiéis. É por isso, principalmente, que ficou confidencial ao ponto de sobreviver apenas em poucas zonas do Irão e do Iraque.)

    Lembremo-nos também de que João Baptista é o Padroeiro do Québec e de todos os Canadianos. Pois foi no dia 24 de Junho (Natividade de João Baptista), no « Rio dos Prados » que foi celebrada a primeira Missa no Canadá. No dia 25 de Fevereiro, o Papa São Pio X confirmou a devoção popular ao proclamar S.João Baptista padroeiro dos canadianos francófonos. Vários santos, tal como o Sto Cura deArs, lhe tinham uma grande devoção.

    Apesar disso, « na sociedade e na cultura do cristão ordinário , no pensamento e na teologia ocidentais, João está como que  escamoteado. (Padre Daniel-Ange ). Para a multidão dos cristãos, João baptista, um dos maiores santos, também é um dos santos mais desconhecidos. Com o fim de o fazer subir  no « hit-parad » dos santos mais amados, o Padre Daniel-Ange escreveu um livro : « João-Baptista. Para o novo milenário, o Profeta da luz » (Ed. des Béatitudes), no qual enumera cinco aspectos da vida de João que tornam a missão dele muito actual :

a)Frente ao novo paganismo religioso, é urgente mandar pelas estradas milhares de pequenos precursores, para levar uma multidão a viver a experiência dum encontro pessoal com Jesus. Ora, João não será precisamente o primeiro dos missionários, dos monges e dos contemplativos ?
b)Num mundo abatido pela tristeza, João é por excelência o Profeta da alegria. Nesses anos jubilares, contagiosa  é a dança dele ao acolher Maria e o seu Filho !
c)Frente aos « virus » da suspeita que minam o organismo da nossa fé, ele é o primeiro a proclamar a identidade divina do Menino, quando diz que Maria é Mãe de Deus.
d)Frente aos « virus » de morte que matam a vida, ele grita que, desde a sua conceição, o embrião é um ser imortal.
e)Frente às prostituições do amor, ao desabamento das famílias, ele derrama o seu sangue para proclamar a verdade ao tirano adúltero e incestuoso. Ele protege o matrimónio humano que é o sinal mais bonito do amor. Ele salva a sexualidade, pela contemplação da Trindade.

    Tudo isso é muitíssimo importante ! Cada aspecto merecia muitos comentários. Neste  2° Domingo do Advento, gostava de falar só no primeiro. No recente « Compemdium do Catecismo da Igreja Católica, encontra-se esta pergunta (n. 102) : Quais foram as preparações dos mistérios de Jesus ? ( é mesmo o tema do Advento). Eis a resposta :

Antes de mais nada, é de notar que houve durante muitos séculos uma longa esperança, que vivemos novamente no tempo litúrgico do Advento . Além da espera escura que depositou no coração dos pagãos,Deus preparou a vinda do seu Filho através da Antiga Aliança, até João-Baptista, que é o último e o maior dos profetas.

    A esperança foi o tema da minha homilia de domingo passado. A resposta do « Compendium » mostra bem a relação entre a esperança e a figura de João-Baptista, que é testemunha da esperança no seu apogeu, o último preparador da vinda do Salvador. No deserto da região do Jordão, ele proclama que chegou o tempo do cumprimento das promessas e que o Reino de Deus está próximo : « Preparai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas ! »

    Na sua solidão, João não é nenhum santo que queira trabalhar sózinho, no seu canto. Poderá, como S.Paulo (cf. 2a Leitura) dar graças « por tudo quanto tendes feito pelo Evangelho » ? Como Paulo, João está à procura de colaboradores, ainda hoje : « Preparai o caminho do Senhor, aplanai as suas veredas ! » Aquelas palavras nos são dirigidas a nós, hoje. Qual será a nossa resposta ? Não será uma resposta só pronunciada com os lábios, decorada como que uma resposta do catecismo. A resposta é esta : ser, tornar-se cada vez mais catequistas.

    Há seis anos para trás, no segundo domingo do Advento, João-Paulo II celebrava o Jubileu dos catequistas para os ajudar a entrar no terceiro milenário. Nesta ocasião deu-lhes, por assim dizer, João Baptista como padroeiro :

« Que figura podia ser mais adaptada do que a de João-Baptista para o vosso Jubileu, carissimos catequistas e ensinantes da religião católica ? (…) Na pessoa do Baptista,  encontrais hoje os exemplos fundamentais do vosso serviço eclesial. Ao confrontar-vos com ele, encontrais coragem para realizar a verificação da missão que a Igreja vos confia. (…)

A página evangélica de hoje convida-nos a um exame de consciência sério. S.Lucas fala-nos em « veredas a endireitar », em « vales a encher », em « montes » e « colinas a baixar », para que cada homem possa ver a salvação de Deus (cf. Lc 3, 4-6) . Aqueles « vales » lembram a distância que se verifica, às vezes, nalguns, entre a fé que professam e a sua vida no dia a dia. O Concílio situou essa distância « entre as faltas mais graves do nosso tempo » (Gaudium et Spes, n. 43).

    Aquelas palavras do Concílio e de João Paulo II : João-Baptista para o terceiro milenário, interrogam-nos :  o que é que fizemos com elas ? Desde o princípio deste novo milenário, desde o grande Jubileu do Ano 2000, que efeitos produziram ? escutemos ainda o que se segue :

As « veredas » a endireitar lembram, além disso, a condição de certos cristãos que, do património integral e imutável da fé, destacam elementos escolhidos de maneira subjectiva, talvez à luz da mentalidade dominante, e que se afastam do caminho justo da espiritualidade evangélica, para se referir a valores incertas inspiradas por um moralismo convencional .

Na verdade, por viver numa sociedade multi-etnica e multi-religiosa, o cristão não pode deixar de sentir a urgência da missão apostólica que levava S.Paulo a proclamar : « Aí de mim, se não anunciar o Evangelho ! » (1 Co 9, 16). Em cada situação, em cada meio de vida, seja favorável ou não, devemos propor corajosamente o Evangelho de Cristo, anúncio da felicidade para cada pessoa de cada idade, de cada categoria, de cada cultura e de cada país.

    Os próprios Pastores da Igreja, seja ao nível universal, nacional ou diocesano, comprometeram-se nesta profunda renovação da catequese em condições sempre evolutivas. Roma já tinha publicado, em 1977 o » Directório geral da Catequese ». Desde o ano de 2000, a Conferência episcopal francesa tinha começado uma obre comprida para pôr em marcha esse « Directório ». Depois de um ano de vai-e-vem entre Roma e França acaba de ser aprovado por Roma o « Texto Nacional para a orientação da catequese em França » (7/11/2006). « Trata-se agora de propôr a fé, quer dizer, não só de a manter, mas de a fazer nascer » (Mgr Dufour, Bispo de Limoges, presidente da Comissão episcopal da catequese e do catecumenato).

    A « bala » está agora no « campo » de cada bispo. Durante a Assembleia do Clero, no dia 3 de Outubro passado, o nosso arcebispo deu-nos uma primeira ideia. Nomeou como nova responsável pela catequese a Irmã Jeanne-Marie CHROMÉ, auxiliada pelo Padre Bruno Latour, pároco do François. À volta deles será constituida, durante  um ano de reflexão, uma equipa diocesana. Na Quinta-Feira, dia 30 de novembro passado, o arcebispo já convocou um primeiro encontro com os delegados dos padres e dos catequistas de cada « arciprestado ». A nossa paróquia  era representada por Madame Danielle Césaire. Aqui memso um encontro há-de ser organizado com o Sr Paroco e todas as responsáveis de ano de catequese da paróquia no dia 30 de Janeiro de 2007 às 18,00h. Obrigado por marcar desde já essa data.

    Mas a educação cristã não é o dominio reservado dos (das) catequistas. Também e antes de mais nada é o dever dos pais, da família. Também é uma tarefa que diz respeito a toda a comunidade cristã, em primeiro lugar aos que frequentam a assembleia dominical. « Da mesma maneira que a transmissão da escritura e da leitura não se faz só pelo ensino, da mesma maneira não podemos ficar satisfeitos por ter explicado às crianças o que é a primeira Comunhão : elas têm que fazer uma experiência : este é o papel fundamental de iniciação pela comunidade cristã reunida no domingo » (Mgr Dufour)

    O fim da catequese é evidentemente ajudar a realizar um encontro pessoal e vivo com Jesus, dentro da comunidade cristã. Para que esse encontro se possa realizar, não só S. João Baptista e S. Paulo, mas também o próprio Jesus precisam de colaboradores, de mediadores. Oxalá S. João Baptista nos ajude a respondermos à sua chamada com generosidade e fidelidade.


(tradução : Pe G.Jeuge)

ESPERANÇA LOUCA (Lc 21, 25… 36)

Walter Covens #homilias em português
1 Avent C 1lec
    Já estamos no tempo do Advento, princípio dum novo ano litúrgico. O Evangelho desse princípio do ano parece-se muito com o do fim do ano anterior (33° domingo B). Pois, ele pertence também aos « apocalipses sinópticos. O texto de S. Lucas é aquele que melhor faz a distinção entre o que diz respeito à Destruição de Jerusalém e a Parusia. Como toda a literatura apocalíptica da Bíblia ele é um convite à esperança, à esperança contra toda a esperança, pois é uma esperança dentro dum tempo de provas, de subversões, uma esperança que não está baseada sobre sinais de renovação, de melhoração, de alívio, mas só sobre a promessa de Deus. Por isso é que a esperança está simbolizada pela âncora (cf. He 6, 19). A âncora é aquilo que impede o návio ser apanhado pelas águas andar sem governo. A esperança é aquele virtude teologal que o Senhor nos deixa para podermos ficar firmamente agarrados na terra firme das suas promessas no meio das tempestades do mundo.

    Ora, qual é essa promessa ? É uma promessa de felicidade, de felicidade infinita, de felicidade perfeita. É aquela que nos lembra a primeira Leitura : « Estão a chegar dias em que cumprirei a promessa de felicidade que fiz à casa de Israel e à casa de Judá ». Não é o Pofeta quem o diz, é mesmo a « Palavra do Senhor ». Aquela « Palavra do Senhor » é uma « palavra boa ». Portanto é uma boa nova, um evangelho.

    Qual é a felicidade prometida por Deus, a promessa que o Senhor há-de cumprir ? Não é uma felicidade pequena, de pacotilha. É a promessa que o Senhor fez a David por intermédio de Natã : « Quando a tua vida acabar e descansares junto dos teus pais, eu dar-te-ei um sucessor na tua descendência, nascido de ti, e tornarei estável a sua realeza » (2 S 7, 12) Essa certeza é penhor de felicidade, pois a realeza havia-de trazer ao povo a certeza duma protecção contra os inimigos (« Jerusalém ficará segura »), e portanto certeza de paz, de prosperidade, de justiça. É mesmo a certeza de felicidade duradoura : « A tua casa e a tua realeza ficarão sempre diante de Mim, o teu trono ficara estável para sempre » (2 S 7, 16)

    Ora, os sucessores de David, e o próprio David, nunca conseguiram verdadeiramente realizar aquela promessa do Senhor, e a esperança do povo foi abalada quando os reis sucessivos, em vez de estabelecer o reino da paz e da justiça, fizeram « o que é mal aos olhos do Senhor », e por isso levaram o povo até à ruína. Na primeira leitura da missa, quando o Senhor renova solenemente a sua promessa, não só nenhum rei tinha corespondido a essa esperança, ao « retrato-robot » do rei ideal, mas já não havia rei ! O reino que David tinha deixado a Salomão, o seu filho e sucessor, tinha sido dividido : « a casa de Israel » e « a casa de Judá » : Judá e Israel já eram irmãos inimigos. O Povo estava cada vez mais desiludido. A promessa do Senhor parecia cada vez mais fictícia, irreal, a  felicidade prometida cada vez mais longinqua e utópica.


    Naquelas condições, como era possível ficar sem dúvidas ? Como era possível não criticar todos quantos tinham anunciado « palavras boas » dizendo : « Palavra do Senhor » ? Como era possível não querer mal ao Deus que, desde havia séculos tinha feito aquelas promessas tão bonitas, aparentemente nunca cumpridas ? A primeira resposta é esta : para o Senhor, « mil anos são como que um dia ! » (Ps 90,4 ). Um século, para Deus, é só uma hora ! A seguir, não é Deus que não cumpre as suas promessas, são os homens. Deus faz promessas no quadro duma Aliança. Portanto, deve haver reciprocidade. Por isso é que, quando os homens o criticam, Deus responde : « Serei eu que seja duro para convosco ? Não sereis vós que sejais duros para comigo ? » (cf.Ml 3,13). Quando os homens dizem de Deus : « O procedimento de Deus é estranho », o Senhor responde que o que é estranho é o comportamento dos homens (cf. Ez 18, 25 ;29). Quando, aos olhos dos homens Deus parece tardar, não é Ele que é lento, os homens são quem tardam. Deus, por sua parte, é paciente e oferece o tempo para se converter (2 P 3,9)

    Nós sabemos, pelo menos teoricamente, que Deus cumpriu em Jesus todas as suas promessas (cf. 2 Co  1, 20). Ora, o que é que acontece ? No mesmo momento em que Jesus vem, não para abolir mas sim para cumprir, muitos dentro do povo e dos chefes rejeitam-no. Encontramos aqui, mais uma vez o terrível paradoxo da vida com Deus. No domingo de Cristo, Rei do Universo,o Evangelho mostra-nos um Cristo julgado e condenado por Pilatos, um rei coroado de espinhos, um rei crucificado ! É aquele Rei, descendente de David, que vem cumprir as promessas. Ora, ninguém o quer acolher… Pelo contrário, no momento em que o povo queria levar Jesus à força para o fazer Rei (porque acabava de lhes dar pão à fartura, Jesus tinha fugido para evitar os fastos da coroação.

    É no contexto da Paixão que Jesus dá o seu testemunho supremo da Verdade da sua realeza. A Verdade, é esse o objecto da nossa fé. A fé é uma certeza, mas uma certeza que não deixa de encontrar obstáculos, uma vez que não é a certeza evidente duma verdade conforme as medidas da nossa natureza humana ; é,sim, a certeza da Verdade na noite, da Verdade dos pensametos de Deus que estão muito acima do céu e da terra. (cf. Is 55, 9) A fé implica portanto uma espera, a espera duma contemplação face a face duma verdade muito grande para a nossa pobre inteligência, enquanto estamos na terra.

    A esperança também é uma espera. Mas enquanto que na fé esperamos pelo encontro com a Verdade suprema que não podemos contemplar aqui em baxo, com a esperança estamos à espera da possessão da plenitude do bem,da felicidade que não podemos gozar aqui. É mesmo uma coisa louca pela qual esperamos : o encontro com o bem Supremo, com o próprio Deus, o único que possa satisfazer o nosso  desejo e que estará todo em todos (cf. 1 Co 15, 28) Só o amor infinito e todo-poderoso de Deus pode satisfazer todos os desejos de todas as criaturas, dos anjos e dos homens. Então aderimos a Deus já não como Princípio de Luz, mas também como Princípio beatificante capaz de matar a sede duma felicidade muito grande para o meu pobre coração, a sede de felicidade de todas as suas criaturas.

    Aquela espera ultrapassa as nossas capacidades humanas. Os homens podem esperar com um amor humano uma felicidade humana, um mundo melhor ; não podem esperar com uma esperança teologal sem o auxílio de Deus. Podemos cantar com Guy BEART :

É a esperança louca
Que dança e voa
Por cima dos tectos,
Das casas e das praças.
A terra é baixa :
Eu voo para ti.

Tudo está alcançado de antemão ;
Eu começo novamente,
Subo de pés nus
Até ao cimo dos montes,mastros de cocanha
Dos céus desconhecidos

    Mas quais são esses montes desconhecidos ? Guy Béart é natural do Libano. Viveu no Libano, durante uma grade parte de sua juventude ; foi là uma primeira vez, no ano de 1989, à procura do túmulo do seu pai… Não teve tempo para procurar. Era a guerra. Ele próprio conta como escreveu mais uma canção : « Livre Libano ».

Ao regresar da praça dos Mártires, encontrei um companheiro de infância. O pai dele vendia instrumentos de música quand ele tinha 7 anos e eu 12. Tratava sempre de música. Ajudou-me para reunir crianças e adolescentes libaneses no bairro de Dora, devastado, aniquilado, mas menos perigoso hoje do que a Praça dos Canhões ; esse bairro parece-se com um apocalipse de ciência-ficção com os prédios em ruínas, os seus canos de petróleo queimados, torcidos. Alecco HABIB, cantor e músico libanês, emprestou-me a sua guitarra. E Jacques LUSSAN , « kiné », poeta e cantor que me tinha feito a amizade de me acompanhar naquela aventura, realizou, mediante o meu velho gravador, a gravação desse grupo coral improvisado.

Eis algumas palavras dessa canção :

Levantemos o verde da esperança,
O verde do cedro libanês,
O branco do leite da nascença,
O vermelho do sangue dos vivos.

Levantemos o verde da esperança !
Juntos, em toda a parte, melhor do que dantes,
Reunidos para o renascimento
Do mundo em paz pelos seus filhos.

Libano livre
Livre Libano

    Passaram 17 anos… Sabeis o que se seguiu : os acontecimentos dos últimos meses, dos últimos dias. E não acabou, de certeza. Ora, podeis verificar isto : nestas condições, humanamente, tendes que cair no desespero. Mas se tiverdes a força da graça,, podereis fazer o que Jesus diz no Evangelho : « Quando começarem esses acontecimentos, erguei-vos e levantai a cabeça, pois a vossa redenção está próxima, enquanto que « os homens morrerão de medo por causa das infelicidades a caír sobre o mundo »

    Mas se o vosso coração se tornar pesado « na desordem, na embriaguez e nos cuidados da vida », se não rezardes « todo o tempo », não podereis resistir. Não podereis fugir. Não quer dizer que, se rezardes, não virá infelicidade alguma : essa ainda é uma espera humana. « Pão e jogos » : não é isso que Jesus promete. Sucessos a aplausos também não. Se eu vos prometesse no meu « blog »um meio certo para ganhar no proximo « Tiercé » - versão moderna da multiplicação dos pães, mas só para alguns « felizes »( ?) – com certeza que encontraria um sucesso enorme. Não,pelo contrário, aos que rezam e o seguem Jesus anuncia perseguições, que os outros não conhecerão. Por isso é que não quis ser proclamado Messias antes da Páscoa, afim de preservar os seus discípulos daquelas perigosas ilusões. Isso nem sempre bastou. O perigo que vós fugireis é o de perder a fé e de caír no desespero. Fugireis o perigo de olhr para os falsos profetas que vos oferecerão paraísos ilusórios ;fugireis o perigo de vos olhar a vós mesmos como Messias.

    Guy Béart dizia : « Temos todos, agora, que tentar comportar-nos como se fossemos, durante alguns minutos, alguns segundos, o Messias, porque o planeta inteiro está em perigo ». Isto teria o significado de que Jesus teria que deixar , alguns momentos, de ser o Messias… Não, direis vós : « O Senhor é a nossa justiça ».

    Caso contemos com as nossas próprias forças para salvar o mundo, já estamos perdidos. A Paz de Deus não é o resultado dos nossos esforços. A Paz de Deus é o próprio Deus, tal como se dá àquele que aceita dar-lhe lugar para o acolher. Oferecer-lhe lugar , isto significa também estar dispostos a ver desaparecer as nossas esperas de felicidade humana, para que a felicidade de Deus possa ocupar toto o espaço. Bom Advento !


(tradução : G.Jeuge)

APOCALIPSE – SABER O QUE « FALAR » QUER DIZER (Mc 13,24-32)

Walter Covens #homilias em português
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    Na Profissão de fé dizemos que cremos em Deus, Criador do céu e da terra. Hoje, as pessoas têm medo de falar nisso. Há motivos filosóficos e teológicos.. Também há uma espécie de complexo em relação à ciência. No contexto da cultura descristianizada do mundo ocidental, pelo menos do europeu, tem-se medo de parecer estúpido. No entanto, numa conhecida conferência do Cardeal Ratzinger em Lyon, (Janeiro de 1983) sobre a catequese, o nosso futuro Papa afirmava : « Uma renovação decisiva da fé na Criação constitue uma condição necessária e preliminária à credibilidade e ao aprofundamento da cristologia bem como da escatologia »

    A seguir, temos recebido a « prenda » do « Catecismo da Igreja Católica », em que se pode ler (282) :

« A catequese sobre a Criação reveste uma importância essencial. Ele diz respeito aos próprios alicerces da vida humana e cristã : pois, ela explicita a resposta da fé cristã à pergunta elementar que os homens sempre se fizeram : « Donde vimos ? » « Aonde vamos ? » « Qual a nossa origem ? » « Qual o nosso fim ? » « Donde vem e para onde vai tudo quanto existe ? ». As duas perguntas, a da origem e a do fim, são inseparáveis. Elas são decisivas para o sentido e para a orientação da nossa vida e do nosso agir »

    E mais além :

« O « Credo » cristão – profissão da nossa fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, e na sua acção criadora, salvadora e santificadora -  tem o seu cume na proclamação da resurreição dos mortos no fim dos tempos, bem como na vida eterna. »

    Estamos a chegar ao fim do ano litúrgico. Na sua pedagogia maternal, a Igreja orienta a meditação dos seus filhos para as realidades do fim, em resposta às perguntas fundamentais que se fazem : onde é que vamos ? qual o nosso fim ? Para onde vai tudo quanto existe ?

    É importante, no nosso mundo ter a audâcia de dar testemunho da esperança que está em nós. Para isso é preciso ter palavras, um vocabulário. A mãe é quem ensina o falar aos seus filhos . Da mesma maneira, a Igreja é quem dá aos seus filhos as palavras para testemunhar da sua esperança. Por exemplo, temos as palavras « apocalipse », « escatologia », « parusia »

    É preciso tamabém perceber o sentido dessas palavras. À partida, as crianças não percebem muito bem as palavras que ouvem e que aprendem pouco a pouco a pronunciar pela repetição. Não é grave. Pouco a pouco, hão de comprender. O error era de ficar à espera da compreensão antes de ensinar a pronunciação. É igual na Igreja. Essa não vai ficar à espera da vossa morte antes de vos ensinar as coisas do fim. Como era possível, neste caso, testemunhar disso no mundo ?

    Outro error era que a mãe não emende a criança quando se dá conta de que ela não percebeu correctamente alguma palavra. Assim, ano litúrgico após ano litúrgico, deviamos aproveitar para crescermos na inteligência da dé, percebendo cada vez melhor as palavras que temos de dizer. Num mundo  secularizado que « rouba » o vacabulário cristão a propósito de tudo e de nada, sem nada perceber, o nosso dever é ficarmos vigilantes muito atentamente.

    Isso todo é verdade a propósito da palavra « apocalipse » que quer dizer, não « catástrofes » tremendas, ma sim « revelação ». O verão próximo, a figueira que rebenta, isso não é realmente uma « catástrofe » : é  sim uma benção, não é ? Com a palavra « apocalipse », a Igreja não fala só dum livro da Biblia (o último). É um género literário muito usado pelo judaismo tardio, relativo com o fim dos tempos (a escatologia). O livro de Daniel, no Antigo Testamento, do qual temos escutado um trecho, é uma « apocalipse ». O discurso de Jesus anunciando a destruição de Jerusalém e a segunda vinda do Messias é chamado « apocalipse sinóptica ». Acabamos de ouvir um trecho dessa acapolipse no evangelho de S. Marcos. Há também muitas « apocalipses » apócrifas, não reconhecidas pela Igreja como inspiradas por Deus : por exemplo, a apocalipse de  S.Pedro, de S.Paulo, de Sto Estevão, etc…

    • ESCATOLOGIA = « OS ÚLTIMOS TEMPOS » : já começaram, desde o dia do Pentecostes : entrámos então nos tempos que são os últimos. Entre o princípio e o fim, houve vários tempos
1-O tempo da Criação
2-A Aliança com Adão ;
3-A Aliança com Noé, aliança pela vida, que nunca acabará.
4-A Aliança com Abraão, e depois com Moisés : Deus escolhe para Si um povo, e mediante esse povo, quer revelar o Seu mistério : é Israël. A Aliança com Israël começa com Abraão, é confirmada com Moisés, através das tábuas da Lei, Lei provisória destinada a nos guiar, até que o próprio Deus venha para salvar o seu povo.
5-O tempo do Messias, quando se cumpriu a promessa, quando veio Jesus, Filho do Pai, Cara do Pai. No fim do livro de Isaías (63,9), está escrito : « Não foi um mensageiro, nem um Anjo, que os salvou, foi o próprio Senhor ». Quando professamos que cremos no Evangelho, isso não quer dizer que acreditamos numa mensagem, mas sim numa Pessoa. A Aliança torna-se nova em Jesus, Novo testamento ( « Testamento » = aliança, atestação). Deus vem novamente e chama as nações, isso é : nós, os pagãos, para entrar na Aliança. Uma grande parte de Israël não quis receber Jesus como Messias, porque não era conforme com a ideia que tinham relativamente a um Messias  vitorioso, rei, salvador. Uma vez que Israël não o recebeu, Jesus foi aos pagãos, apesar de ter ordenado aos seus enviados : « Ide de preferência às ovelhas perdidas da casa de Israël » (Mt 10, 6) ; O pensamento de Jesus, o projecto inicial, ao que parece no Evangelho, era ter um  Povo que, depois de O reconhecer, iria anunciá-lo às nações. Aquele projecto falhou em grande parte, e Deus chorou, em Jesus, por causa disso : « Quando Jesus chegou perto de Jerusalém, ao ver a Cidade, chorou sobre ela, e disse : - Ah ! se tu também, tiveste reconhecido naquele dia o que te pode trazer a paz ! » (Lc 19, 41) « Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas, tu que lapidas os que te são enviados, quantas vezes quis reunir os teus filhos como a galinha reune os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste ! » (Lc, 13, 14)
6- A partir daí, há uma Aliança nova com as nações. Aquela Aliança já não está na carne, como foi com Abraão pela cincuncisão, já não está na Lei, como foi com Moisés. Esta Aliança está na fé em Cristo vivo, morto e ressuscitado, vivo para sempre, que nos dá a vida eterna : « Aquele que crê em Mim, mesmo que morra, viverá ! » Jesus não fingiu morrer. Desceu aos infernos (local dos mortos, no qual esperam  a manifestação gloriosa dos filhos de Deus). Foi anunciar a Boa Nova « aos espíritos presos » diz S.Pedro. (1 P 3, 19) Subiu de novo « tendo nas mãos as chaves da morte », livremente ressuscitado « levando consigo todos os principados e dominações presas » (Ap 12, 7-8 ; Col 2,15) A Ascenção de Jesus, já é a vitória de Jesus manifestada sobre o mal e a morte. Aquela vitória já está alcançada.

    Desde que Jesus, reunindo o mundo inteiro ( inclusivamente os pagãos, e portanto nós, por sorte, pela graça), os vivos e os mortos, subiu para o Céu para oferecer tudo isso ao Pai, a Vitória dela sobre a Morte, o pecado e o mal já estã alcançada. Mas ainda não se manifesta plenamente e estamos naqueles tempos que são os últimos, última étapa da Salvação de Deus onde a Vitória já é dada, o demónio já vencido, mas essa vitória ainda não se maifestou, e nós, a Igreja, o Povo de Deus, temos que anunciar a Salvação e trabalhar em vista à manifestação desta vitória.

    No vocabulário cristão, há mais uma palavra importante, a palavra « Parusia ». Essa é uma palavra que era usada qunado uma Pessoa importante fazia uma visita oficial ; palavra que significa : chegada, presênça, isto é a vinda e a presença dum Grande Rei. A Parusia há-de coroar os últimos tempos e a vinda da nova Jerusalém. A Mensagem da Palavra de Deus, é mesmo a Nova Aliança no Sangue de Jesus, do Cordeiro, que acabará com a Parusia, isto é : o seu regresso, o seu triunfo, e o seu reino para a eternidade, mas que ainda não é manifestado. Isso pode levar miliões de anos, pode ser nesta noite, e o próprio Cristo diz : « Quanto ao dia e à hora, ninguém os conhece, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai ». Portanto, devemos ficar por aqui : aos que nos querem vender ilusões dizendo que o Reino está próximo, podemos responder : « Sim, o Reino está próximo, e já está cá, mas ainda não é totalmente manifestado ». Na sexta-feira passada, encontrei na minha caixa de correio um envelope com duas folhas dentro, intituladas assim : « Na Martínica um mensageiro de Deus anuncia o próximo regresso de Jesus ». Não ! é o segredo do céu, da Trindade. Jesus, enquanto homem, nem o sabia. Não vejo porque havia-de enviar agora alguém para nos dizer o contrário.

    Devemos preparar-nos à Parusia vigilando : «  Acautelai-vos, vigiai ; pois não sabeis quando chegará o momento » (Mc 13, 33) Às vezes, nos sermões sobre a Ascenção, ouve-se dizer : « Homens de Galileia, porque é que ficais assim a olhar para o Céu ? Regressai à terra, arregaçãi as mangas e trabalhai ». Não é isso que foi dito : « Aquele Jesus que vistes subir, há-de vir da mesma maneira como o vistes subir ao céu ! » Portanto, o Anjo anuncia a Parusia, a vinda de Cristo.

    No Pentecostes há um ambiente de comunhão fraterna entre pessoas que têm muitas coisas para se acusar mutuamente : « Onde estavas tu, Pedro ? – No Calvário – Ah não ! não estavas, nada tens a censurar. – E tu, João, o que é que fizeste, no dia em que tentaste tomar o meu lugar para ser primeiro ministro ? » Havia tensões permanentes naquela equpa, isso aparece em todo o evangelho ; e Jesus , em cólera, diz : « Até quando terei que estar convosco ? Quanto tempo terei ainda que vos suportar ? » Não devemos idealizar a comunidade primitiva. Mas entre a Ascenção e o Pentecostes, eles estão todos juntos ; eles têm qualquer coisa em comum, é o ter visto Jesus ressuscitado, ter comido e bebido com Ele depois da Ressurreição : são testemunhas. (Actos 10, 41)

    O que é que fazem ? Rezam e esperam ! Nao é essa uma atitude muito activa, e no entanto estão à espera do Espírito Santo porque o Mestre da Missão não é Pedro, é sim o Espírito Santo. Um bispo dizia : « Aonde for eu, bem depressa vejo as pessoas da « Renovação Carismática » e as outras ! – « Ah ! Como é que fazeis ? » - « Não é difícil, quando vou a reuniões em que não há gente da Renovação, as pessoas trabalham, rezam no fim do encontro para pedir ao Senhor a benção do trabalho feito e o tornar eficaz. Quando vou entre pessoas da Renovação, começam por rezar com o fim de  pedir ao Senhor para vir e fazer o trabalho… só depois é que se começa o trabalho. – Qual será o ideal ? – Rezar antes e depois ». Estamos de acordo !

    O tempo de hoje é o tempo da Igreja, o tempo da Misericórdia. Escutai este velho « midrash » tão bonito : « O Messias disse : Virei hoje à noite, às 21.00h. Então, os Judeus fazem a festa, preparam tudo. É o serão do Shabbat. Esperam o Messias, abrem a porta. Vai chegar, já está cá, está à porta ! 21 horas chegam : não ha Messias. 22 horas – meia-noite – uma hora – 2 horas – 3 horas – 4 horas…Não está o Messias. Então ! Será que Deus não cumpre as suas promessas ? Afinal, com a aurora, chega o Messias, um bocado estafado, e diz assim : « Desculpai, venho atrasado, pois encontrei uma criança a chorar e consolei-a ».
   
    Se nos fabricarmos um mundo (isto depende de nós, com a graça de Deus) em que as crianças tiverem consolos, em que houver menos crianças a chorar, menos torturas, menos injustiças, menos pessoas isoladas, o Messias não chegará atrasado, virá mais depressa. Então, temos que rezar com força, que trabalhar com humildade, dia após dia, para que este mundo novo chegue, e que cheguem enfim as Bodas do Cordeiro.


(tradução : G.Jeuge)

O TESAURO DA POBRE VIÚVA (32° Domingo do Tempo Comum – Ano B)

Walter Covens #homilias em português
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    Vou ler primeiro, a propósito do evangelho que acabamos de ouvir, o que se encontra num comentário dos 4 evangelhos : « A lição é tão evidente que não precisa dum comentário. Era melhor meditar pessoalmente na conclusão prática, com sabedoria (cf. 2 C 8,13), mas generosamente » Mais nada ! Ora, o livro comporta mais de 800 paginas… entre as quais, so três linhas pequenas para a pobre viúva ! Sim, é verdade, é lição é evidente : é realmente pobre, aquela viúva…

    Então, o que é que poderá dizer um « pobre » pregador como eu, encarregado de vos fazer a homilia a respeito dessa viúva ? Em primeiro lugar, hei-de dizer que esse evangelho me comove muito pessoalmente. Agora mesmo, a minha mãe é viúva desde há 50 anos. Quando faleceu o meu pai, cinco anos depois de casar, ela ficou com 4 crianças ao seu encargo, cuja a mais nova, uma menina, acabava de nascer. Eu, o mais velho, ia crescendo e notava muitas vezes que os fins dos meses eram muito difíceis para a minha mãe : quando precisavamos de alguma coisa para a escola, tinha que contar os últimos céntimos do seu porta-moedas.

    Mas a pobre viúva do evangelho era ainda mais pobre. Pois, a minha mãe podia usar dum pequeno seguro de vida que o pai tinha contratado, bem como duma pensão paga pelo Estado. No tempo de Jesus, em Jerusalém, não havia nada disso. As viúvas nem podiam sequer herdar dos maridos defuntos. Ao deitar as suas duas moedas no Tesouro do Templo, a viúva do evangelho não se diz : « Tanto faz ! amanhã o carteiro vai trazer-me o meu cheque »… Realmente, « deu tudo, tudo quanto tinha para viver ». A esmola dessa viúva é muito notável, pois lembramo-nos de que S.Marcos disse algures que os escribas « devoram os haveres das viúvas ». O contraste é gritante entre a voracidade dos escribas e a generosidade daquela mulher.

    Aqui também tenho recordações da minha infância de que nunca me poderei esquecer. No nosso quintal havia um marmeleiro. A quantidade de fruta dependia da chuva : essa árvore precisa de muita água. Ora, naquele ano, como muitas vezes acontece na Bélgica, tinha chovido muito, e havia muitos marmelos. Como o marmelo não se como cru, a minha mãe tinha feito marmelada com eles (a marmelada é usada contra a diarreia). Ao que parece não eramos sózinhos a sofrer dessa incomodidade : os nossos vizinhos eram muito interessados pela produção artesanal da nossa mãe ; tinham pedido para ela vender alguns frascos. Os vizinhos tinham recebido os seus frascos de marmelada… mas a nossa mãe nunca recebeu o seu dinheiro !

    Aquela anedota mostra bem que, ainda hoje, as viúvas, mesmo que tenham ajuda do Estado, ficam uma presa fácil num mundo em que, muitas vezes, vale sobretudo a lei do mais forte, onde reina o dinheiro. Se os escribas devoravam os seus pobres haveres, a viúva do evangelho teria podido aproveitar a sua situação para não deitar nada no Tesouro. Ao deitar as suas duas moedas, nem podia sequer esperar uma admiração qualquer muito menos um agradecimento como recompensa do seu gesto. O que ela fez foi totalmente gratuito, por amor ao Senhor, sen rancor nenhum contra os homens.

    Então, sim, tiremos disso « pessoalmente, a conclusão prática, prudentemente, mas generosamente ». « Prudentemente, conforme o conselho de S.Paulo por ocasião dum peditório realizado para socorrer a comunidade de Jerusalém : « Não se trata de vos pôr na penúria auxiliando os outros, trata-se, isso sim, de igualdade » ; também « generosamente ». S.Paulo, antes de precisar com prudência aos cristãos de Corinto que não lhes pedia para dar do seu necessário, mas sim do supérfluo, faz uma chamada à generosidade deles, afim de que não se julguem muito facilmente dispensados de dar tudo quanto podiam dar. Diz-lhes : « Conheceis, pois, a generosidade de Nosso Senhor Jesus Cristo : ele, que é rico, tornou-se pobre por causa de vós, para que sejais ricos mediante a sua pobreza. (…) Agora, ide até ao fim da realização ; assim, tal como resolvistes com todo o vosso coração, assim havereis-de ir até ao fim das vossas possibilidades ». Não é obrigatório dar aquilo de que precisamos para viver, mas temos de ir até ao fim das nossas possibilidades ; eis a lição que podemos reter. Pouco importa se não se pode dar mais : « Quando damos com todo o nosso coração, somos aceites como somos ; pouco importa o que não se tem » (2 Co 8, 9-14)

    Além disso, podemos acrescentar que « aquilo que temos » não é só dinheiro. Podemos dar também tempo, trabalho… Podemos dar até filhos. Não sei o que a minha mãe deitava na caixa da igreja ou no peditório da missa. O que sei, é que ela deu ao Senhor e à Igreja um filho padre, outro diacono permanente e uma filha consagrada numa comunidade… Podemos dar sobretudo o nossso amor. O que é importante, em matéria de dinheiro, de tempo, de trabalho, etc…não é a quantidade, mas sim a qualidade. E quando nos gabamos sempre da quantidade, é sinal de fraca qualidade. « Acautelai-vos dos escribas, que gostam de saír com vestidos compridos, que gostam das saudações nas praças públicas, dos primeiros lugares nas sinagogas e nos jantares. Eles devoram os haveres das viúvas e fingem rezar longamente : por causa disso, serão severamente condenados » A Madre Teresa dizia : « Não seremos julgados pela quantidade de trabalho realizado, mas pelo peso de amor que no trabalho tivermos depositado ».

    « Condenados », « julgados » : trata-se realmente dum julgamento. Esse julgamento é o de Deus respeitante a cada um de nós. A Escritura fala várias vezes dum « julgamento geral », no fim do mundo, e também dum julgamento « particular », no fim da nossa vida.Mas aqueles dois julgamentos são misericordiosamente antecipados por Jesus, para que, no fim da nossa vida e no fim do mundo, não caiamos do alto, e para que tenhamos o tempo de nos converter na nossa maneira de dar. Na secção que estamos a meditar, Jesus apresenta-se como Aquele quem julga Jerusalém já neste tempo. O julgamento é realizado em actos e palavras. O julgamento de Jerusalém em actos começa com a entrada de Jesus na cidade ; continua com a figueira estéril e seca e com a purificação do Templo. O julgamento de Jerusalém em palavras são as discussões teológicas no Templo a respeito da sua autoridade, da maneira de ler a Escritura, da questão do imposto, da ressurreição dos mortos e do discernamento do que é mais importante nos mandamentos, bem como com a pergunta de Jesus que fica sem resposta. O evangelho de hoje é a conclusão desse julgamento. É o último ensinamento de Jesus no templo. Pois, já não entrará mais no Templo. Alguns dias mais tarde, Jesus vai ser julgado injustamente pelos mesmos que ele julgou tão justamente. Em vez de se converterer graças ao julgamento de Jesus, endureceram-se..

    Em relação ao próprio Jesus é que cada um é interpelado e situado. É frente a Jesus que cada um é julgado, desde já, bem como no fim da sua vida, bem como no fim do mundo. Pela Sua Palavra e pela Sua Eucaristia, na qual ele se dá totalmente a nós é que somos julgados. Os vários grupos de adversários de Jesus não encontraram escapatória a não ser no silêncio e a não-fé. Qual a nossa reacção depois de ouvir a Palavra de julgamento de hoje ? Como é que resolvemos o que vamos dar no peditório , parte integrante da missa. Qual a nossa resposta a Jesus quem entrega o seu Corpo e derrama o seu Sangue por nós, quando o celebrante disser, no fim desta celebração : « Vamos em paz e que o Senhor nos acompanhe » ? Qual o nosso empenhamento no mundo, e na Igreja durante a semana que vem ?

    Peçamos à pobre viúva do evangelho para nos ensinar que a única resposta que nós possamos dar Àquele que se tornou pobre para nos enriquecer é ir até ao fim das nossas possibilidades. Peçamo-lo também à Virgem Maria, a Viúva perfeita. Pois Ela é quem deu realmente tudo, tudo quanto tinha para viver : Jesus, o seu próprio Filho . Nisso ela é um sinal na Igreja. Num comentário muito bonito de Apresentação no Templo, Martinho Luther escreve :

« O que significa o facto de Simeão falar só e pessoalmente a Maria, a mãe de Jesus, e não a José ? Isso significa com certeza que a Igreja cristã fica na terra como que a Virgem Maria espiritual, que não será destruida, mesmo que os seus pregadores, a sua fé, o seu evangelho, Cristo espiritual, fossem perseguidos. Se bem que José falecer primeiro, que Jesus for martirizado, que Maria ficar viúva e despojada do seu Filho, no entanto ela ficará, e aquela grande aflição atravessa o seu coração. Assim, a Igreja cristã fica sempre uma viúva e o coração dela é traspassado por causa da morte de José, dos Santos Padres e do Seu Filho, enquanto o evangelho continua perseguido ; tem que sofrer a espada e no entanto ficar sempre, até ao último dia."

    A Igreja é portanto, também ela, como que uma viúva constantemente despojada dos seus bens por um mundo que a persegue, mas que não deixa de dar a Deus tudo o que tem : Jesus ».

(Tradução : G.Jeuge)

DEDICAÇÁO, OBRA DE DEUS ESQUECIDA (Último Domingo de Outubro)

Walter Covens #homilias em português
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    Hoje, na nossa paróquia, bem como em toda a parte, em França e na Bélgica, celebramos a solenidade da nossa igreja, cuja data de consagração não se conhece ( 25 de Outubro ou último Domingo do mesmo mês). Entre nós, alegramo-nos porque vão ser baptizadas 4 criancinhas.

    Se me dais licença, vou começar por fazer quatro perguntas :
1a : Sabeis o dia do vosso nascimento ?
2a : Sabeis o dia do vosso Baptismo ?
3a : Sabeis a data da construção da vossa igreja paroquial ?
4a : Sabeis a data da Dedicação da vossa igreja paroquial ?

    Já sei que, salvo revelação repentina, ninguém ganhou. Pois já fiz a quarta pergunta há poucos meses, e não recebi resposta alguma, menos a duma paroquiana que pediu a muita gente, até ao bispado… e não encontrou resposta . Essa pessoa merece portanto uma « menção de honra ».

    Achais isso normal ? Além disso, não me atrevo a imaginar o número de pessoas que nem sabem sequer o dia do seu baptismo. Quando, de vez em quando, faço a pergunta, a resposta é esta : « Mas, Senhor Padre, estava muito pequenino (pequenina), não me lembro !… Obrigado por me lembrar isso, mas sei perfeitamente que o ser humano não se lembra de nada do que aconteceu nos dois ou três primeiros anos da sua vida. No entanto, há uma data que precedeu o nosso baptismo de que , acho eu, ninguém se esquece : é o nascimento. Porquê será que toda a gente sabe o dia do seu nascimento ? Porque os nossos pais no-lo-dissseram, porque está inscrito nos documentos de identidade, e porque, desde pequenos, já festejavamos o nosso aniversário..

    Se não sabemos o dia do nosso baptismo, é portanto porque nada ajudou a nossa memória :
Os nossos pais, padrinhos e madrinhas nunca falaram nisso.
A cédula pessoal não foi completada, consultada ... ou perdeu-se.
Nunca foi celebrado o aniversário do nosso baptismo.

    No entanto, quer que seja o motivo, temos uma responsabilidade pessoal. Pois, se tivessemos a vontade de saber, teriamos sabido. Basta pedir a quem participou na celebração : eles tinham mais de três anos !. Caso ninguém se lembrasse, era (e é) sempre possível pedir no escritório paroquial… se conheceis o lugar onde fostes baptizados !

    Se tivermos a coragem suficiente, o motivo por causa de que não sabemos o dia do nosso baptismo, enquanto que sabemos o da nascença (que aconteceu antes), teremos que responder mais ou menos isto : « É porque estou a viver como que um pagão ! » O que é « viver como que um pagão ? Não quer dizer que sois maus (há pagãos muito simpáticos) ; não quer dizer também que não ides à missa (vocês estão cá !). Por « viver como pagão », quero falar em geral : olhar como mais importante o que faz o homem do que o que Deus faz.

    Não quero falar mais nisso no quadro desta homilia… Seria muito longo. Lembro só isto : David disse a Deus (ao profeta Natã) : « Vou construir uma casa para Ti ».- « Muito bem ! Parabéns ! » responde o Profeta. Mas a seguir, o Senhor diz a Natã o Seu Pensamento : « Sou Eu quem te construirei uma casa » manda-lhe dizer. Salomão, filho de David e seu sucessor é quem empreendera aquela obra. E David tem que abandonar o seu projecto, por generoso que seja, para realizar um trabalho diferente, muito mais importante : crer que Deus realizará a Sua promessa. Para quê serviria realizar muitas coisas « por Deus » se não acolhermos com fé o que Deus faz « por nós » ? Isso só serviria para nos afastar de Deus, e para nos afundar no nosso orgulho. Afinal, eramos capazes de pensar que somos nós quem vamos salvar Deus, enquanto que Ele é quem nos salva.

    O Templo edificado por Salomão será profanado e destruido no tempo do Exílio ; depois será reedificado uma primeira vez por Esdras, outra vez profanado (mas não destruido) por ordem de Antioco IV Epifana, purificado de novo por Judas Macabeu. Estava em obras de reconstrução no tempo de Jesus por iniciativa de Herodes ( uma maneira para ser bem visto pelo povo e pelas autoridades religiosas).

    « Voltemos à vaca-fria » (que, aliás, não temos abandonado) : dar o ser a uma criança, mesmo que seja por Deus, está bem. E não se pode « fazer » uma criança sem Ele, mas só com Ele. Mas se o gerarmos por Deus, tendo consciência de que o geramos com Ele, e se, além disso, somos cristãos, não poderemos deixar de pedir para a criança a graça do baptismo quanto antes. O Baptismo não é um acto que fazemos por Deus : antes de mais nada Deus é quem o faz por nós. Se estamos baptizados, mas se não ligamos importância ao nosso baptismo (porque nem nos lembramos da data), então isso significa que o nosso acto « por Deus » nos parece muito mais importante do que aquilo que Deus faz por nós.

    Já o disse, há pouco : « Voltemos à vaca-fria »…Quer dizer : ao nosso assunto de hoje. Ora, o assunto de hoje não é só o baptismo (vão ser 4 daqui a pouco). O nosso assunto também é a Dedicação da nossa igreja. Ora, essa é a mesma coisa ! Cuidado : não digo que a dedicação duma igreja seja um baptismo. Há quem faz a confusão : baptismo, consagração, benção… Só digo que se trata duma semelhança : nascença e baptismo dum lado e construção duma igreja e dedicação dessa igreja, por outro lado. A construção duma igreja é obra humana. A Dedicação duma igreja é obra de Deus. Podemos falar assim, acho eu. Então, estais a ver a analogia ?

    Em virtude dessa analogia, posso dizer-vos que, da mesma maneira que muitos dentre vós não sabem a data do seu baptismo, enquanto que toda a gente sabe a data da sua nascença( uma pessoa centenária até conhece a sua data de nacsença !) da mesma maneira ninguém, nem sequer no arcebispado, conhece a data de Dedicação da nossa igreja, enquanto que se conhece perfeitamente a data da sua construção. Relativamente à construção, consegui facilmente obter as informações : a nossa igreja nem é centenária. Lembram-se do início das obras de construção : no ano de 1930. São conhecidos também nomes de pessoas que foram na origem desta iniciativa, com muitos pormenores que não posso lembrar aqui : o Sr Morinière, que trabalhava na fábrica do Robert e morava no « Vert-Pré », onde construirá uma fábrica de destilação, cujas ruinas ficaram visíveis muito tempo no terreno dos « ananás », hoje chamado « Cidade os Ananás » ; dois Bretãos também : o Sr Leray, pioneiro da instalação da escola no « Vert-Pré »,e o Sr Maignan, que era dono das terras nas quais está hoje a igreja. O relato que tive a oportunidade de ler e que me deu essas informações, relato feito no ano de 1994, diz, entre outras coisas, isto :

    « Relativamente à construção da igreja, ela foi o resultado duma solidariedade exemplar (o bispado, solicitado para participar com uma ajuda financeira tinha respondido que não se devia contar com ele), como infelizmente hoje em dia quase não se encontra no Vert-Pré. Na verdade, naquele tempo havia uma ajuda mútua sem cálculo, sem pensamentos reservados. As pedras que haviam-de ser utilizadas eram reunidas em cada bairro. À noite, quando o montão era bastante impotante, todos (mais ou menos 50) iam buscá-las e traziam-nas, um nas mãos, outro por cima da cabeça, enquanto cantavam alegremente cânticos religiosos. Era uma enorme procissão de homens e mulheres, felizes por trabalhar assim, que trabalhavam até não ficar pedra alguma. Então passavam o montão para o bairro mais próximo : eram, na verdade, « trabalhos de Hercules », quando se pensa na distância percorida e nas sendas lamacentas do tempo !

    E as obras avançavam. Carpinteiros benévolos trabalhavam durante aquele tempo na fabricação dos bancos. (…) E o dinheiro ? Pois bem, algumas pessoas (poucas) conseguiram dar alguns francos e moedas : naquele tempo as pessoas tinham pouco dinheiro na campanha…

    Naqueles condições difíceis, quatro anos foram necessários para edificar esta igreja. Isso é que é maravilhoso, e tudo isso, sabe-se muito bem, mesmo que muitos agora não se lembrem. Mas no que diz respeito à Dedicação : absolutamente nada ! Eis a anomalia. Esqueceram-se depressa que, para o baptismo do seu Filho, Deus começou a preparação desde antes da criação do mundo, usando de Abraão,de Moisés, dos Profetas… para chegar a Jesus Cristo, que desceu do Céu, nasceu da Virgem Maria e derramou o seu sangue por nós sob Póncio Pilatos. Esqueceram-se depressa de que, a seguir, os Apóstolos, auxiliados por muitos outros, foram anunciar aquela Boa Nova ao mundo inteiro, até que a fé católica chegasse ao nosso país há mais ou menos 500 anos, ao preço de tanto sangue , sacrifícios e renúncias até aos nossos dias… Tudo isso é obra do Espírito Santo, pois que sem Ele os homens trabalham em vão… Mas não nos esquecemos do jantar festivo preparado, por ocasião dum baptismo, da lista de convidados da « sono » ensurdecedora et de tudo quanto julgamos indispensável para criar « um ambiente ».

    Ora, quando o que faz o homem se torna mais importante aos nossos olhos do que o que faz Deus, isso tem as mesmas consequências de há 2000 anos no Templo de Jerusalém, quando Jesus foi obrigado de intervir « manu militari » para pôr as coisas em ordem na casa do seu Pai, porque ela se tinha tornado casa de negócios. Entre a primeira Leitura (Dedicação do Templo e oração de Salomão : era bom lê-la inteiramente) e a cena do evangelho, que diferença ! que decadência ! A quem não gosta, Jesus diz : « Destroí este Templo, e em três dias, levantá-lo-ei ». Os adversários de Jesus respondem : « Quarenta e seis anos foram necessários para edificar este templo ( é recente, e fica em todas memórias, mas quanto valia aquela reconstrução aos olhos de Deus ?) et tu, em três dias levá-lo-ias ! ». Estais a ver a obra do homem : 46 anos : é muito mais do que para a igreja do Vert-Pré !) e a obra de Deus (3 dias) em que não acreditam quando manda o seu Filho único.

    Terminarei esta homilia com uma citação do Cardeal Ratzinger que escreveu em 1975 (publicarei o texto completo ao longo da semana que vem) :
 
« É o Espírito quem edifica as pedras, não o contrário. O Espírito não pode ser substituido pelo dinheiro ou pela história. Onde quem constroí não é o Espírito, as pedras tornam-se mudas. Onde o Espírito não está vivo, onde não actua, onde não reina, as catedrais tornam-se museus, monumentos comemorativos do passado (… ou salas de concerto… aprendemos, pois, que a « Santa Capela », em Paris, foi transfomada num teatro para um desfile de moda !), duma beleza triste por ser morta. (…) A grandeza da nossa história , nossas possibilidades financeiras não nos trazem a salvação ; podem tornar-se ruinas que nos sufocam. Se quem edifica não é o Espírito, o dinheiro edifica em vão ( e também os esforços humanos). Só a fé pode conservar vivas as catedrais, e a catedral milenária interpela-nos : teremos a força da fé, que só pode dar o presente e o futuro ? Afinal, não é o serviço da protecção dos monumentos - apesar de ser importante e precioso – que será capaz de manter a catedral, mas sim o Espírito que a criou ».

    O que vale para as catedrais também vale para as igrejas : « Todas as igrejas são fundamentalmente intermutáveis e de dignidade igual » (Cal Ratzinger ».

    Deixemos, portanto, o Espírito edificar a nossa igreja, graças ao seu auxílio para nós acreditarmos em Jesus, a pedra deitada pelos construtores, mas tornada pedra angular.
 
(Tradução : Pe G.Jeuge)

O CÉU É PARA A CRIANÇA (27e domingo comum)

Walter Covens #homilias em português
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       Dois mil anos separam-nos do tempo em que a cena do evangelho deste dia desenrolou-se… No entanto, lembra-nos uma situação que não nos é nada estrangeira. A questão do casamento fica sempre actual em muitos paises. A compreensão dela fica sempre tão importante como difícil para a humanidade pecadora. Ao ouvirmos tudo quanto se diz e se faz, com o pretexto de tolerância, de liberdade e de progresso, é o direito e o dever da Igreja lembrar a tempo e contra-tempo que a verdade é que torna livre, e que ninguém pode ser cristão (verdadeiro discípulo de Jesus) a não ser na fidelidade à sua palavra, que é verdade (cf ; Jo 8,32)

       Jesus, no Evangelho, refere-se ao princípio, isso é à criação. Até os pagãos não têm desculpa alguma, diz S.Paulo, uma vez que o que Deus tem de invisível desde a criação do mundo se deixa ver à inteligência através das suas obras (Rm 1,18 ss) : deixaram-se levar a raciocínios que não conduzem a nada, e as trevas encheram o coração deles, que não têm inteligência. (…) Trocaram a verdade de Deus contra a mentira ; adoraram e serviram as criaturas em vez do Criador, que é bendito eternamente. Portanto trata-se duma moral que diz respeito a todos e não só aos cristãos.

       Ora, é frequente, em nossos dias, ver pessoas que se pretendem cristãs, católicas até e que não só cometem pecados inexcusáveis para os pagãos, mas que também concordam com aqueles que os cometem (cf. Rm 1,12). Ao mesmo tempo, elas reivindicam o direito de poder comungar, de casar novamente, de adoptar crianças, de se tornar sacerdotes ! No evangelho, só é questão dos homens e das mulheres que desonram o seu corpo no adultério. Mas S.Paulo fala também naqueles que desonram o seu corpo em relações homosexuais. Sempre houve pessoas com tendência homosexual, no tempo de S.Paulo como hoje ; mas o suposto progresso consiste nisto : já não ter vergonha nenhuma disso e fazer todo o possível para que as uniões homosexuais sejam juridicamente reconhecidas.

       A fé autêntica vem ao socorro da verdadeira razão, sem a diminuir por isso. Não nos esqueçamos da organização dos trechos no Evangelho de S. Marcos : é mesmo a questão da fé cristã que acarreta a questão da moral cristã. So é ao descobrir quem é Jesus que se pode aprender o que é preciso fazer para o seguir. Quem já não sabe quem é aquele que segue, este perde necessariamente a luz do " como ". Uma moral não pode ser cristã a não ser na dependência da fé cristã. Portanto, se a fé está a diminuir, o sentido moral também se perde necessariamente. Como, num caso destes, ficar filhos de Deus sem mancha no meio duma geração perdida e pervertida, e brilhar como as estrelas no universo ? (cf.Fil 2,15)

       Essa observação muito simples, mas muito importante, deve ser conservada na memória se quisermos compreender alguma coisa nas razões da evolução das mentalidades, não só hoje, mas em todos os tempos. Da mesma maneira que a fé não é só uma realidade estática, assim a moral é chamada a evoluir, mas de maneira não independente. Assim, quando a fé está a diminuir, o sentido moral também diminui. Se a fé está a crescer, ele cresce também..

       Aos fariseus que vêm ter com ele para o embaraçar e que se referem, não a uma prescrição (" O que é que Moisés vos prescreveu ? "), mas sim a uma autorização de Moisés (" Moisés permitiu despedir a sua mulher), Jesus responde que não se trata duma prescrição, nem duma autorização, mas sim duma concessão. Quanto ao divórcio, Moisés não prescreveu nada, nem deu alguma vez uma autorização para divorciar. Só verificou uma situação cada vez mais deteriorada, e formulou uma lei para limitar os estragos e para proteger a mulher contra a arbitrariedade do homem :

" Seja um homem que casou com uma mulher e consumiu o matrimónio ; mas aquela mulher não lhe agradou, e ele descobriu nela um defeito grave ; portanto, redigiu para ela um acto de repúdio e lhe entregou ; depois expulsou-a da sua casa ; ela abandonou a casa, foi embora e pertenceu a outro homem. Se, por acaso, aquele homem não gostar dela, se redigir para ela um acto de repúdio, se lhe entregar e a mandar embora (ou se morrer aquele homem que a recebeu como mulher), o primeiro marido que a repudiou já não a poderá tomar novamente, depois dela se ter tornada impura. Pois isso é uma abominação aos olhos de Deus, e tu não deves levar a pecar o país que Yavé, o teu Deus, te dá em herança ".(Dt 24, 1-4)

       Com outras palavras, se Moisés teve que fazer uma lei a propósito do divórcio, foi porque o povo tinha caido muito baixo. Jesus di-lo claramente : " Foi por causa do vosso endurecimento que Moisés formulou essa lei. S. Marcos já nos mostrou Jesus confrontado com esse endurecimento : " Então, olhando para eles com um olhar de cólera, magoado daquele endurecimento dos seus corações " (Mc 3,5) Pecar é uma coisa. Pode ser um fraqueza passageira. Endurecer-se é pecar voluntariamente e teimosamente, recusando abrir os olhos e mudar de comportamento. O endurecimento, tal como a ignorância fingida, diz o Catecismo, " não diminuem, mas aumentam o carácter voluntário do pecado " (CEC 1859)

       Uma legislação pode às vezes tolerar comportamentos moralmente inaceitáveis e pode às vezes renunciar a castigar o que poderia provocar, pela proibição, um dano pior. Mas " nunca deve enfraquecer o reconhecimento do casamento monogámico indissolúvel como única forma autêntica da família " (Compendium DES, 229). " O povo de Deus terá que intervir junto das autoridades públicas afim de que essas, apesar das tendências que enfraquecem a própria sociedade e prejudicam a dignidade, a segurança e o bem-estar dos cidadãos, se empenhem para impedir que a opinião pública seja levada ao desprezo da importância institucional do casamento e da família " (Familiaris Consortio, 81)

       Neste tempo em que se fala muito em " casamentos homosexuais " e de " famílias recompostas ", aquela palavra da Igreja não deve ser estimada de pouca importância. Os valores humanos são pelo menos tão importantes como os valores económicos. Os cristãos têm portanto de dar a sua opinião aos responsáveis políticos. Desistir de o fazer é um pecado por omissãao que pode ter consequências para o futuro da humanidade, mais graves do que o re-aquecimento do planeta, o qual dá muito que falar hoje em dia.

       Para terminar, não nos esqueçamos da última parte do evangelho. Deve ser a mais importante ao ver de S. Marcos. Esse pequeno trecho, de aparência insignificante, é na verdade o centro desta parte do seu evangelho, o centro de toda a vida moral do discípulo de Jesus, a chave de todos os paradoxos evangélicos no campo da moral cristã. As crianças são estes pequenos que são grandes, esses últimos que são os primeiros, aqueles dependentes que são acolhedores. A criança lembra a todos, em primeiro ao cristão, que o receber é mais mportante do que o fazer, que as exigências do Amor de Deus não são factos extraordinários, impossíveis de realizar, mas uma graça que toda a gente pode acolher. Na presença desta graça oferecida, as acções humanas nunca poderão ser uma moeda para comprar o direito de entrar no Reino. Eis a revelação que caracteriza a moral cristã.

       Antes daquela cena (9,33 ; 10,12), é o aspecto da acção humana que é acentuado. Trata-se daquele que expulsa os demónios em nome de Jesus ; de cortar a mão, o pé, de arrancar o olho, em resumo da supressão de tudo quanto pode levar ao pecado ; e, na primeira parte do trecho deste dia, de ir mais longe no cumprimento dos mandamentos daquilo que é , sem mais, " autorizado " pela Lei de Moisés.

       No entanto, não é a castidade mais perfeita, nem a pobreza mais radical, nem a obediência aos mandamentos (tudo isso que é pedido pelo Senhor aos que querem ser os seus discípulos), que dão um direito qualquer àquilo que Deus quer dar como graça a quem lhe pede. É o que Teresa de Lisieux tinha tão bem percebido. É o que devemos pedir a esta " Doutora da Igreja " de nos ensinar, como ela o ensinou às novícias do carmelo. Um dia, uma delas dizia-lhe : " Quando penso em tudo quanto tenho ainda de fazer para me tornar uma boa religiosa ! " Sta Tersinha respondeu-lhe : " Diga de preferência : ‘de perder !’ ". E numa das suas poesias (PN 24,9), dirigendo-se a Jesus, ela escreve :



Lembra-te das tuas divinas ternuras
De que cumulaste as crianças mais pequenas.
Quero também receber as tuas caricias.
Ah ! dá-me os teus beijos maravilhosos
Para eu gozar nos Céus da tua doce presença.
Saberei praticar as virtudes da infância ;
Não disseste muitas vezes :
" O Céu é para a criança ? "
Lembra-te.



       Eis porque, depois dessas poucas palavras sobre as crianças, é a receptividade da observância humana frente à acção de Deus que é sublinhada, Seguir Jesus, isto é, além dos mandamentos, adoptar a pobreza radical que é a sua, sem ajuda humana, e na qual, a cada momento, desde esta vida, ele recebe do Pai o céntuplo, com perseguições, e no mundo futuro, a vida eterna. Este será o tema do evangelho do próximo domingo.



(Tradução : G.Jeuge)

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