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Praedicatho homélies à temps et à contretemps
Homélies du dimanche, homilies, homilieën, homilias. "C'est par la folie de la prédication que Dieu a jugé bon de sauver ceux qui croient" 1 Co 1,21

#homilias em portugues

A LOUCURA DAS GRANDEZAS 29° DO TEMPO COMUM (ANO B)

Walter Covens #homilias em português

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    Já estamos na quinta secção do Evangelho de S.Marcos, e ao mesmo tempo, estes são os últimos domingos do Ano « B » (Tempo Comum). Durante cinco domingos vamos ouvir, cada vez, não uma leitura contínua, mas sim cinco extractos dessa secção.
 

    Depois da secção moral, trata-se agora explicitamente da subida de Jesus para Jerusalém. Esta a primeira vez em S.Marcos (cf. 10, 32-35) : 3° anúncio da Paixão – que foi omitido pela liturgia) !

 

    Mas Jesus não sobe sòzinho. Qual é a « companhia de Jesus »? Ele sobe com discípulos assustados, com pessoas que estavam também a temer (10,32), e entre os Doze, Tiago e João ávidos de lugares de primeira e de poder, enquanto que os outros dez se indignavam. Era esse o quadro. Estais a ver : não se pode dizer que a qualidade estivesse presente !

 

    É possível, evidentemente, insistir muito na atitude aventureira e na falta de lucidez naquela « companhia de Jesus », nomeadamente nos Apóstolos. Mas também é possível, em vez de criticar apontando com o dedo, ficar na admiração. Isto é muito mais positivo e sobretudo muito mais proveitoso para nós. Mas admirar o quê ? – Admirar duas coisas : em primeiro lugar o caminho que os Apóstolos haverão de percorrer a partir do Pentecostes ; e a seguir o facto de que não quiseram esconder o que era pouco glorioso para eles, mas que para a gloria de Deus, deram a conhecer às suas ovelhas, com sinceridade e humildade. Podemos imitá-los !

 

    Não digo isso para evitar os problemas « espinhosos » a respeito das fraquezas e as misérias da hierarquia da Igreja ainda hoje (da hierarquia só ?), mas sim para indicar um caminho que seja proveitoso em vez de ser estéril. Pois, caso  nos contentassemos, relativamente a este evangelho, com palavras mais ou menos inteligentes como estas : « Estais a ver, são todos iguais ! E não mudou. Agora é pior até !… », então, mesmo que não seja totalmente falso, podiamos deixar de lado o essencial. Podiamos sobretudo fazer nós aquilo mesmo que criticamos nos outros.. Pois, não está certo que a motivação secreta de palavras destas não seja a mesma do que a dos Dez que olhavam invejosos as manobras pouco  recomendáveis de Tiago e João.

 

    Evidentemente, se S. Marcos quis acolher no seu evangelho o que tinha ouvido da própria boca dos Doze, deve ser porque julgou que nas primeiras comunidades cristãs isso podia ser proveitoso não só à humildade dos Apóstolos, mas também ser uma advertência para os sucessores deles… bem como para todos os cristãos. É portanto assim que devemos meditar o episódio

 

    Não nos esqueçamos também de que os primeiros cristãos tiveram que sofrer várias vagas de perseguições que deixavam pouco lugar às ambições inconvenientes « à Tiago e João ». A tentação dos cristãos perseguidos era mais do lado da demissão do que da ambição. Aquele que se tornava cristão sabia muito bem que deste facto perdia as esperanças dum futuro rico.

 

    Sei bem que, nos tempos que seguiram, não foi sempre assim. Mas hoje em dia, na maior parte dos nossos países, o facto de ser cristão (principalmente católico) suscita sorrisinhos e palavras desagradáveis, nomeadamente diante das máquinas de filmar da televisão. Instintivamente gostamos mais de ficar despercebidos do que professar a nossa fé cristã. Hoje em dia, a promoção social sonhada por toda a gente já não consiste em ser padre. Da mesma maneira, um padre não sonha necessariamente no episcopado, mesmo que S.Paulo diga que quem deseja ser epíscopo deseja uma tarefa bonita (1 Tim 3,1)

 

    Um jovem  que vivia em Alexandria, muitíssimo inteligente e aberto às coisas de Deus, um certo dia, ao ler o capítulo 53 de Isaías (cf. 1a leitura) tinha dito , no seu coração : « Mas é Jesus ! É Jesus ! » Ora, quand manifestou a sua descoberta, os seus familiares tornaram-lhe a vida tão dura que ele se matou. A perseguição faz parte do programa.

 

    « Não sabeis o que estais a pedir », disse Jesus. Isso é verdade relativamente à maior parte dos nossos pedidos na oração. Mas Jesus sabe muito bem o que responde. Quando lhe pedimos a glória, Jesus responde-nos pela prova e pela perseguição. Pois que as nossas provas actuais são ligeiras comparativamente ao peso de glória eterna que nos preparam, diz S.Paulo (2 Co 4,17). Tiago e João aprenderam isso, também eles. João foi o único dos Doze a seguir Jesus até à Cruz. Tiago foi o primeiro dentre os Doze que morreu mártir.

 

    Quando lemos assim o Evangelho, verificamos que é um livro de combate. « Estava escrito para os discípulos que combatem pelo anúncio da Palavra de Cristo  frente a adversários que não recuam diante dos piores tratamentos » (S-Th. Pinckaers). Percebemos melhor também o carácter às vezes nítido e duro de algumas palavras e exigências de Cristo. Mesmo que gozemos exteriormente da paz religiosa, interiormente temos todos que enfrentar uma luta espiritual.

 

    Assim Jesus leva os seus discípulos até a « PASSAR DA LOUCURA DAS GRANDEZAS À LOUCURA DA CRUZ ». . A grandeza verdadeira é mesmo a santidade. E a santidade é o AMOR. Mas não há Amor sem Cruz. « Não há maior amor do que dar a sua vida pelos seus amigos » (Jo 12,13). « As grandezas hierárquicas passarão, já não existirão mais. Haverá grandezas de santidade (…), quer dizer : as opções que se hão-de fazer pela luz ou contra a luz » (Cal Journet).

 

    Tudo isso não impede que os Santos tenham sempre respeitado as grandezas do mundo e as da hierarquia da Igreja. Quando S. Vicente de Paulo chegava na presença de Luís XIV, dava-lhe todas as provas de reverência usadas naquele tempo. No tempo de Sta Catarina de Sena, havia muitos abandonos e muitos escândalos entre os sacerdotes ; no entanto, ela dizia : »Eles são ministros do Sol . Não os devemos condenar ; o Juiz único é Deus ».

 

    Na verdade, todas as grandezas de hierarquia desaparecerão, as da Igreja bem como as do mundo. Só ficará a grandeza da santidade. A Igreja canoniza certos cristãos. Mas a Igreja não diz quem, entre os cristãos, é o maior. Aparecerão muitas surpresas. Daqui a pouco, vamos celebrá-los a todos numa só e única festa. Talvez santos desconhecidos sejam maiores do que santos famosos. No entanto, o que nós podemos dizer sem risco de nos enganar, é que a Virgem Maria é Rainha de todos os santos, portanto a maior de todos. No nosso Rosário, peçamos-lhe sem cessar que reze por nós,pobres pecadores. Ela sabe muito bem o que deve pedir por nós. E os seus pedidos são cada vez atendidos.

(Tradução : G.Jeuge)

28° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B)

Walter Covens #homilias em português

28 TOB ev

 

    Com o evangelho deste domingo chegamos ao fim da secção « moral » de Marcos que começou no capítulo 8,31 : Jesus então, em resposta à profissão de fé de Pedro,  tinha anunciado, pela primeira vez a sua Paixão e a sua Ressurreição. Esse primeiro anúncio é seguido por uma chamada dirigida à multidão e aos discípulos : «  Se alguém quiser andar atrás de mim, deverá renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir-me (V. 34)..

 

    A moral cristã portanto consiste essencialmente nisto : seguir Jesus, o Messias. Jesus apresenta-se como que o Mestre (9, 17 .38 ; 10,017.20) que ensina com a autoridade de Deus em pessoa : « Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o »(9, 7). A moral cristã é uma moral revelada que é muito mais do que um conjunto de preceitos ajuntados à moral natural.

 

    A moral cristã consiste numa comunidade de vida com Jesus. É preciso nunca separar o dogma da moral, Jesus da vida cristã , sob pena de misturar tudo… e deixar caír tudo. Em resumo : não há Jesus sem vida cristã e não há vida cristã sem Jesus !

 

    É de notar também que o cenário dessa secção é duplo : É como numa peça de teatro :  estamos numa alternação… ora « no caminho », ora « em casa ». O caminho, é aquela estrada na qual Jesus anda frente aos seus discípulos, que o seguem assim-assim em direcção à Cruz e à Ressurreição. A casa é o lugar em que os ensina  e responde com paciência às perguntas deles, pois que, muitas vezes, eles não percebem. Para nós, o caminho é o mundo no qual temos que dar testemunho da nossa fé pelo nosso comportamento ; a casa é a Igreja na qual encontramos a comida tão necessária para fortalecer a nossa fé.

 

    Estamos a chegar ao fim dessa secção : pode ser para nós uma oportunidade para a ler toda novamente , com um ponto de vista que ainda não temos considerado explicitamente. Não vou dizer nada de revolucionário. É mesmo clássico na espiritualidade cristã. Essa secção fala no agir cristão, olhando nele três pontos principais que cruzam os domínios principais da vida humana e cristã.

 

    Numa primeira cena , que se passa « em casa » (de Pedro ?), em Cafarnaum (9, 33-50) é o problema de saber quem é o maior, de saber quem está por nós e quem está contra nós. É o problema do poder, da vida « política ».

 

    Com o capítulo 10 ( evangelho de domingo passado), é o poblema do casamento e do divórcio. É o domínio da vida familiar.

 

    Finalmente (evangelho de hoje), é a história do homem rico. É o domínio da vida económica.

 

    Aparece evidente a actualidade daqueles problemas no nosso mundo ( Tenho vontade de dizer, no entanto, que enquanto que a política e a economia são focados em muitos discursos, a família, hoje em dia,  fica o « parente pobre »… mas, vamos para frente !)

 

    Tudo isto , S.Marcos apresenta-o de maneira muito concreta e muito viva, a partir de acontecimentos determinados da vida de cada dia no ambiente em que vivia Jesus. A vida do mundo e a vida cristã não estão separadas por um muro qualquer. Na vida da Igreja encontram-se também os domínios da política, da família e do dinheiro ; isso é evidente ! Estes três domínios dizem respeito aos chamados « três conselhos evangélicos » : obediência na comunidade, castidade relativamente ao matrimónio, a pobreza no uso das riquezas. Tudo isso é necessário para poder entrar no Reino, para entrar na vida, para ser feliz.

 

    Isto supõe que vamos mais longe do que a Lei. Pois a lei não basta. Se a Lei bastasse, isso queria dizer que nós, não precisariamos de Jesus. Ora, já o vimos no problema do matrimónio e do divórcio, Jesus chama-nos para irmos além das discussões jurídicas. No matrimónio, se uma pessoa não comete adultério, está bem. Mas seguir Jesus ainda é outra coisa : não que seja proibido casar para seguir Jesus. Essa é uma compreensão muito estreita, totalmente falsa até, do conselho evangélico de castidade, que diz respeito a toda a gente,a cada qual conforme o seu estado de vida, no casamento ou na vida de solteiro.

 

    O homem do evangelho de hoje (S.Marcos não diz que era um « jovem » mas sim um « homem ») estava casado ou não ? O que sabemos é isto : quando Jesus lhe lembra os mandamentos, nomeadamente aquele que diz : « Não cometerás adultério », o homem responde : Mestre, observei esses mandamentos desde pequeno » Mas quando Jesus o chama para o seguir, torna-se sómbrio e vai embora, muito triste.

 

    Eis portanto um homem que quer ter em herança a vida eterna, que observou os mandamentos desde a sua juventude. No entanto, Jesus diz-lhe : « Só te falta uma coisa ( compreendamos. : observar os mandamentos não chega para entrares na vida, para encontrares a felicidade que procuras). Esta coisa, que é a mais importante, o que é ? O que é que falta à moral natural (a observância dos mandamentos) para ser cristã ?

 

 

    Primeira resposta : vai, vende todos os teus haveres, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Está certo. A resposta é boa , mas incompleta. O que interessa o homem não é ter um tesouro no Céu. Não é muito mau ter um tesouro no Céu, mas para que serve se não é possível entrar no Céu, se o Céu não é a verdadeira e primeira herança. Ora, é isso que quer o homem. Claro que quem quer ter a vida eterna em herança, é melhor ter là um tesouro. Mas, repito eu, para que serve o tesouro se não  se tem a herança ?

 

    Então, acho eu que sabeis já qual é a outra resposta, que tem de completar a primeira : « … e depois segue-me ». Muito bem ! mas quão exigente ! Então, não chega distribuir aos pobres os seus bens ? – Não ! Isto chega talvez para receber o Prémio Nobel da Paz, mas não para ir ao Céu. – Como ? Está a pedir coisas impossíveis, desumanas !. – Impossíveis, sim aos homens, mas não a Deus. É o próprio Jesus que o diz. Escutai bem : « « Aos homens, é impossível, mas não a Deus ; pois que tudo é possível a Deus »

 

    É de notar o matiz com a palavra anterior : «  Quão difícil aos ricos será a entrada no Reino de Deus !… Meus filhos, quão é difícil entrar no Reino de Deus ! «  O homem pode fazer coisas difíceis e Jesus não veio para  nos dizer o contrário. Mas o que o homem não pode fazer, isto é possível a Deus. Portanto, só Deus é quem o pode fazer.

 

    O que é que não é impossível mas sim diíicil ao homem ? É isto : desembaraçar –se das suas riquezas, renunciar aos seus bens, partilhar com os pobres. Um rapazito da Catequese notava a este propósito com grande perspicácia : « Um camelo está tão preocupado por passar pelo fundo duma agulha  como que um rico por entrar no Reino de Deus ! » Tenho vontade de modificar um pouco  essas palavras, para dizer que um camelo está tão preocupado por passar pelo fundo duma agulha como que um rico para partilhar os seus haveres com os pobres. As pessoas estão mais preocupadas para roubar do que para partilhar … Partilhar … Isso é que é difícil. Caso contrário não valeria a pena de dar o Prémio Nobel aos que o praticam. Mas o que é mais difícil ainda, mesmo que se tenha um Prémio Nobel, é aceitar que, apesar de tudo quanto se pode fazer com a maior generosidade e a maior tecnicidade, o que já é bem difícil, não se encontra a maneira de « pôr fim à fome », se é pemitido falar assim.. Isso é terrivelmente difícil,e muito mais para quem é rico, não só de dinheiro e de bens, mas sobretudo de inteligência, de habilidade e de generosidade.

 

    No evangelho, S Marcos diz isso com muita fineza, se queremos fazer o que é nécessário para o escutar com atenção. Então, mais um pequeno esforço …

 

    A pergunta era esta: « O que é que tenho de fazer para ter em herança a vida eterna ? » A resposta de Jesus foi : « Amen, eu digo-vos : ninguém terá deixado, por causa de mim e  do Evangelho, casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos ou terra, que não receba, já neste tempo, o céntuplo : casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e terras, com perseguições e, no mundo futuro, a vida eterna. A dificuldade, para entrar no Reino, não é tanto aprender a fazer  como que aprender a receber aquilo que não podemos fazer, depois de ter feito todo o possível para o fazer ! Já foi esta dificuldade que fez obstáculo os nossos primeiros pais, enquanto ainda estavam na justiça original. Quiseram apoderar-se do fruto que só Deus podia lhes dar.

 

    A graça do Espírito Santo, o Pai dos pobres , vem ao socorro da nossa fraqueza. Mas devemos  confessar essa nossa fraqueza. Para o nosso orgulho, é muitíssimo difícil, mas não é impossível, pelo menos se queremos seguir Jesus. Pois, sem Ele, não podemos fazer nada, nem no domínio da política, nem no da família, nem no da economia. A obediência, a castidade e a pobreza não são coisas a fazer, mas sim graças a receber das mãos do Mestre do impossível. Receber é o privilégio da criança. Ora , é mesmo a criança que está no centro desta parte do evangelho . A criança é aquele que sabe  acolher aquilo que não consegue fazer. A graça não é alguma almofada de preguica, mas sim uma aprendizagem difícil da humildade confiante. Pode ser por isso que, na Fátima, há 90 anos, primeiro o Anjo, e depois a Virgem Maria falaram a 3 crianças para lembrar ao mundo inteiro, ameaçado pela guerra e pelo comunismo, a urgência da oração e da penitência.

25° DOMINGO COMUM (ANO B) – QUANDO A CRIANÇA APARECE

Walter Covens #homilias em português
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       Um pároco duma freguesia de França relata como o bispo dele, um dia, lhe aconselhou fazer estudar o Evangelho de S.Marcos às crianças da catequese. Conforme o conselho do bispo, o pároco trabalhou o comentário dum monge benedictino belga, o qual apresenta o evangelho de S.Marcos como sendo organizado à volta de duas perguntas : " Quem é Jesus ? " - " Como andar atrás dele ? ". O padre fala nisso com as catequistas, que respondem : " Pois não ! Senhor Padre! É muito abstracto para crianças de 6ème et alunos mais interessados pelos factos de sociedade e pelos problemas da sua idade… "

       Pouco tempo depois disso, havia nesta freguesia um dia de preparação para a Profissão de Fé. Da parte da manhã, o padre, que queria seguir os conselhos do seu bispo mais do que os das catequistas, pede às crianças para trabalharem sobre o " prólogo " de S.Marcos : o Baptismo de Jesus (" Tu és o meu Filho muito amado "). De tarde, antes das confissões, ele explica o episódio de Jesus a expulsar os demónios : " Sou sacerdote desde há quase 25 anos… e nunca tive confissões como esta vez ", disse ele. A partir daí as crianças começaram a " esvaziar o seu saco " e a dizer todos os venenos que tinham absorvido mediante " góticos satanistas " e sítios " pornos ", seguidos de tentativas de suicídio ou de fuga. Pela primeira vez da sua vida, com mais de 60 jovens, não houve o mínimo problema de disciplina. Nunca os cadernos tinham sido tão limpos e bem ilustrados.

       Era no ano passado. Este ano, ele continua com S.Lucas. Tem o projecto de estudar os 4 evangelhos no espaço de 4 anos. No fim de 4 anos, o coração daqueles jovens há-de ser bem alimentado e preparado para enfrentar as tempestades.

       Em princípio, lembro-vos isto mais uma vez, o objectivo da liturgia da Palavra, nos domingos do Tempo Comum é este : ajudar- nos a todos – e não só as crianças da catequese- a fazer uma leitura continua dos três evangelhos sinópticos. Infelizmente, nestes últimos domingos, assim como nos seguintes, há bastantes excepções. Já houve um corte entre o 24° e o 25° domingo. Haverá mais um entre o 30° e o 31°. Por isso é que é muito importante não perder de vista a continuação dos evangelhos do 25° até ao 28° domingo ; caso contrário, os trechos proclamados não passavam de anedotas sem pés nem cabeça, das quais se tentaria em vão tirar lições para hoje.

       Na secção anterior, já o disse na homilia de domingo passado, o problema central era : " AQUELE JESUS, QUEM É, AFINAL ? " É portanto esta a questão da FÉ. A secção nova, que começa com o evangelho de hoje responde à esta pergunta : " QUAL O COMPORTAMENTO CARACTERÍSTICO DOS DISCÍPULOS DE CRISTO ? " Vamos, pois, tentar perceber o movimento, bem como a estructura dessa parte do evangelho, que é do campo da moral..

       Esse trecho (9,33 – 10,31) fica entre " o segundo e o terceiro anúncio da Paixão " (9,30-32 e 10,32-34) Antes de mais nada, vamos tentar rapidamente -(não é nada complicado, como vamos ver ; e podereis fazer o exercício em casa com os vossos filhos)- reparar o vocabulário significativo daquela parte. O que chama primeiro a nossa atenção, é isto : a utilização frequente da expressão " entrar na vida ", " entrar no Reino ". Ora nunca Jesus diz qual é aquele reino. Só diz que temos de o procurar, de esperar por ele, de o acolher. Portanto, é uma realidade misteriosa e desconcertante, a respeito da qual Jesus só diz a que se assemelha, mas nunca o que ela é. Para saber o que é o Reino de Deus, temos que seguir Jesus, e mais nada !

       No evangelho de domingo passado, Jesus confessado como Messias pelos Doze, lançara uma chamada inaudita : " Se alguém quiser andar atrás de mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (8,34). A moral cristã, afinal, não é outra coisa a não ser esta : formar com Jesus, confessado como Messias, como Filho do homem sofredor, uma comunidade de vida até ao fim. Quem quiser desatar a moral cristã da pessoa de Cristo, já não é cristão, uma vez que a moral cristã é precisamente esta : um convite para ser e para viver " como Jesus ".

       O que acabo de lembrar é imprescindível para depois perceber as regras do comportamento ( o caminho a seguir, a moral) que darão aos discípulos de Cristo a possibilidade de entrar na Vida, de entrar no Reino de Deus. Essas regras estão apresentadas com forma de paradoxos, como que um derrubamento total dos valores habitualmente admitidos pelos homens. Por exemplo, no evangelho de hoje, Jesus diz : " Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servidor de todos (9,35). Encontraremos outra vez esse paradoxo ( procedimento de inclusão) no fim desta secção (10,31). Há outros entre os dois. Podereis notá-los em casa.

       Estes paradoxos manifestam o derrubamento dos valores feito pela moral cristã, em relação com a moral humana. Frente a estas exigências, a reacção habitual é dizer assim : " Não é nada evidente, Senhor Padre ! " Aquele receio diante das dificuldades da vida cristã aflora no texto evangélico cada vez que se fala da Paixão de Jesus, aqui em 9,32 : " Os discípulos não percebiam essas palavras e tinham medo de o interrogar ". Cada vez que a Igreja lembra tal ou tal exigência da moral cristã, é a mesma reacção, o mesmo medo que se manifesta.

       Um exemplo entre muitos outros : a proclamação, no ano de 1968, da Encíclica " Humanae vitae " pelo Papa Paulo VI ; (Publicarei esta semana nas ‘Homilias a tempo e a contratempo’ o texto escrito pelo Padre Pio ao Papa 11 dias antes de morrer, e publicado no " Osservatore Romano " uma semana mais tarde, como que um testamento…) Todo o contexto dessa encíclica do papa, por um lado, e da carta do Pe Pio por ocasião da publicação dela, por outro lado, são, acho eu, uma ilustração perfeita daquele clima de medo diante das exigências da moral cristã, as quais são finalmente as exigências da Cruz de Cristo. Surge então a tentação de desobediência. Quantos cristãos, católicos, não cairam nessa tentação e continuam a cair ? O tema da encíclica evidentemente não dizia respeito ao Padre Pio, que tinha feito o voto de castidade, Mas ele obedeceu intelectualmente, ao invês doutros sacerdotes e religiosos, que ousaram , nessa altura, ensinar abertamente o contrário daquilo que dizia o papa. Além disso, tinha sofrido muito apesar de fielmente por causa daquela submissão quando foi alvo de acusações e de sanções injustas da parte, nomeadamente, de alguns bispos. Era capaz,portanto, de experimentar pessoalmente a Paixão de Cristo !

       Seguir Cristo, nestas condições, quer que seja a vocação de cada pessoa, é dizer com Ele : " Deve-se ". " Pela primeira vez ensinou-lhes que devia o Filho do homem sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos e escribas, ser morto, e depois de três dias, ressuscitar " (8.31) Aquele " devia " não tem nada de comum com a fatalidade. Está no evangelho de domingo passado.

       No evangelho de hoje, é a segunda vez : " O Filho do hemem é entregue às mãos dos homens ; matá-lo-ão e, três dias depois de morrer, ressuscitará ". Na Cruz, não é primeiro o sofrimento físico que dá medo, é o sofrimento espiritual da obediência (ser entregue), da renúncia à vontade própria, aos raciocinios próprios, sobretudo quando Jesus é seguido para ser " o maior, o primeiro ". Mas não é o querer ser grande que é oposto à vontade de Deus e à moral cristã. A obediência ( e a humilidade, que anda com ela) não consiste no aniquilamento próprio, não é, como pensava Nietzsche, a virtude dos fracos : " Eis que vos ensino o " Sobre-Homem ", escrevia. O Sobre-Homem é o sentido da terra. Que a vossa vontade diga : Que o Sobre-Homem seja o sentido da terra " (em " Also sprach Zarathustra ", livro que o próprio Nietzsche apresenta com que um " 5° evangelho ")

       No Reino de Deus, os obedientes são quem reinam, as crianças são quem governam. Por isso é que Jesus pega numa criança : " colocou-o no meio deles, beijou-o e disse : ‘Quem acolhe em meu nome uma criança como esta, acolhe-me. E quem me acolhe não me acolhe a mim, mas acolhe Aquele que me enviou. Sto Hilário diz : " Através da palavra ‘criança’, o Senhor significa todos quantos acreditam pela fé depois de escutar… como crianças, que seguem o pai, amam a mãe, confiam no que lhes dizem. O costume e a vontade de tais disposições encaminham-nos para o Reino dos Céus. Se nos convertemos à simplicidade das crianças, irradiamos à nossa volta a humildade do Senhor ".

       No domingo que vem, vamos celebrar a festa de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face. Peçamos-he esta graça. No meu " blog " : " Marie, éToile de l’évangélisation " encontrareis todos os dias desta semana uma oração de novena que vos poderá ajudar neste sentido. Boa caminhada com Jesus ! E chegados à casa, não tenhais receio de lhe fazer perguntas. Ele veio não só para caminhar, mas tambm para ficar convosco.



(Tradução G.Jeuge)

23° DOMINGO DO TEMPO COMUM (ANO B) (Mc 7,31-37)

Walter Covens #homilias em português
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       Depois da controvérsia com os Fariseus a respeito da pureeza ritual, Jesus junta os actos com as palavras : vá para uma terra pagã, portanto impura, na região de Tiro, no actual Libano. É naquela terra que vai expulsar o demónio da filha duma mulher siro-feniciana : o pão não é reservado só aos filhos ( os Judeus, os " puros "), mas é também oferecido aos cãezinhos (os pagãos, os " impuros ").

       A seguir, Jesus segue para o levante, " em pleno território da Decápola, isso é na Jordânia actual. Fica, portanto ntre os pagãos. É mesmo o evangelho deste dia. Depois disso, S.Marco situa a segunda multiplicação dos pães. Portanto, Jesus realiza para os pagãos o mesmo sinal do que para os Judeus, junto à riba do lago de Galileia.

       Assim percebemos melhor o alcance da discussão sobre o puro e o impuro, quando se trata de comer o Pão que Deus dá sem distinção a uns e outros. Os impuros não são aqueles a quem se pensa ! Os impuros são aqueles que não acreditam, aqueles que têm o coração endurecido. À partida, consequência do pecado dos primeiros pais, todos os homens são impuros. Mas encontram-se também homens que, indo a Jesus, confessam a sua impureza, e se deixam purificar por Ele . Pelo contrário há pessoas a pensar que são puras e que não precisam de ser purificadas. Ficam afastadas dos outros com desprezo (" fariseu " quer dizer : " separado "), e portanto ficam afastadas, elas também da Mesa do Reino.

       Na Igreja, Povo de Deus no qual Deus fez cair aquilo que os separava, o muro do ódio, ao suprimir as prescrições jurídicas da Lei de Moisés (Ep 2,14-15), todos podem participar nessa Mesa. É preciso ler aqui todo o capítulo 2 da carta de S.Paulo aos Efésios, onde S.Paulo, o Judeu convertido, fala aos pagãos da cidade pagã. S.Paulo começa assim : " E vós, outrora estavais mortos, por causa das culpas e dos pecados nos quais estavais a viver (v. 1-2-. Mas continua logo assim : " Também nós, eramos daqueles, quando seguiamos as tendências egoistas da nossa carne, conforme os caprichos da nossa carne e dos nossos raciocínios ; eramos, nós próprios, destinados à cólera como todos os outros. "

       S. Marco, ele, escreve para os cristãos de Roma, e quer mostrar-lhes que " a fracção do pão " eucarístico (o pão que a Igreja agora partilha com todos) encontra o seu fundamento histórico concreto na vida de Jesus com os seus : já como Pastor do seu Povo, ele reunia-os a todos e partilhava -lhes o pão " (Mourlon Beernaert).

       Mas atenção ! isso não implica a abolição de toda a exigência ! pelo contrário, é uma exigência muito mais importante que se encontra imposta : a exigência do coração puro. É mais exigente purificar o coração do que se lavar as mãos. " Creio num só baptismo para a remissão dos pecados ". Essa é a fé que proclamamos depois da homilia.

       S. Marco mostra-nos que aquele baptismo, também ele, está enraizado nas palavras e nos gestos históricos de Jesus. Os catecúmenos que hoje em dia se preparam ao baptismo aprendem isso. O evangelho de hoje lembra-nos isto : o rito do Effétah " exprime a necessidade da graça para ouvir a palavra de Deus, e para a proclamar em vista á salvação " (Ritual da iniciação cristã para os adultos, n. 194). Durante esse rito, " o celebrante toca com o polegar a orelha direita e a orelha esquerda, depois os lábios de cada catecúmeno, dizendo : " Efféta (o que que dizer) : abre-te, afin de proclamares a fé que ouviste para o louvor e a glória de Deus " (ibid.N.196)

       Só uma coisa feita por Jesus não se faz agor a: o facto de tomar saliva. (Para os Judeus, e até agora, a saliva tem fama de possuir um poder curativo , quando se trata de feridas sem gravidade).

       " As orelhas dele abriram-se : loge a sua lingua foi desligada e começou a falar correctamente ". Evidentemente, aquela cura não é só uma cura corporal –mais uma ! - além da cura ele manifesta o poder da graça de Deus para Israel e para todos os homens. Vede os gestos feitos por Jesus : não só põe os dedos nas orelhas e não só toca a lingua do surdo-mudo, mas " de olhos levantados para o Céu, suspirou e disse : Effata !, isto é : Abre-te ! "

       Se Jesus levanta os olhos para o Céu, é para maifestar a origem de todo o poder de criação e de restauração no qual participa em seu corpo, e que pode comunicar àquele que se deixa formar como que um recém-nascido " (Radermakers).. O Céu, é o Pai que " está nos Céus ".

       Lembremo-nos também que o dedo de Deus é o Espírito Santo. O suspiro de Jesus evoca, também ele, estes gemidos inefáveis do Espírito Santo, que vem ao socorro da nossa fraqueza e que intercede por nós…

       Assim é toda a Trindade que está a agir atrvés dos gestos mais simples de Jesus, nos simples ritos do baptismo e que nos torna capazes da Eucaristia.

       A ponta do relato, o mais espantoso de toda a história é isto : ao olharmos com atenção, os pagãos são tocados mais facilmente pela graça do que os Judeus, do que os discípulos. Os Doze até nem sempre são curados da sua surdez e da sua cegueira. Ainda terão que percorrer muito caminho. S.Marco não deixa de evidenciar a lentidão deles par " ouvir " e " ver ", isto é : para perceber e acreditar (4,13 ; 4,40-41 ; 8,18 ; 16,14). No Domingo que vem, no entanto, vamos ver que Simão-Pedro não é impermeável a tantas palavras e gestos de Jesus.

       Até là, temos que reflectir ; não tenhamos receio de confessar que, muitas vezes, nós os cristãos praticantes – melhor : " missalisantes " (= fiéis à missa dominical), nós que ouvimos a Palavra de Deus todos os domingos, que nos aproximamos da Mesa Eucarística em cada Missa, temos nós também o espírito bem tapado, enquanto que outros, ao que parece, mais afastados do Senhor, deixam-se mais facilmente tocar pela sua Palavra e transformar pela sua Eucaristia. Afinal, para nós, qual há-de ser a importância e a influência da missa do domingo sobre a nossa vida desta semana que começa ? Como dizia o teólogo von Balthasar de maneira atrevida para os especialistas da Bíblia : " Muito poucas pessoas , agora, neste século da " acribia filológica e da arte do recorte, savem que a Bíblia tem Deus como Autor e assim como Origenes não deixa de repetir, deve necesssariamente ter um significado digno de Deus, ou então ter significado nenhum " (" Esprit et feu ", p.49). E um dos discípulos dele para os teólogos : " A nossa teologia muitas vezes retrogradou para o simples monoteismo, mais ou menos polvilhado de citações evangélicas. Eis o que nos da para pensar " (A.Manaranche, " Je crois en Jésus-Christ aujourd’hui ". Aquela frase foi escrita em 1968. Acho que não deixa de ser actual.


 

(Tradução : G.Jeuge)

QUANDO SE INSTALA O ERRO, POSSAMOS PROCLAMAR A VERDADE ! (24° Dom. Comum)

Walter Covens #homilias em português
 
       Com o evangelho de S.Marcos, chegamos hoje a uma étapa na caminhada da fé enquanto resposta à pergunta : " Afinal, quem é Jesus ? ".

       A resposta. Não basta recitá-la só com os lábios . Lembrai-vos : " Aquele povo honra-me com os lábios, mas o coração dele fica longe de mim (Mc 7,6). Não é só a recitação mecánica duma fórmula, mas sim o coração duma vida dada que o Senhor espera de nós. Daí a importância da precisão na resposta de Jesus, na segunda parte do evangelho deste domingo.

       Gosto muito da maneira usada por S.Marcos para começar o seu Evangelho, maneira muito rápida, muito incisiva, por assim dizer " sobre as chavetas de rodas " (como dizem os Franceses !), ou ainda em " pole-position " conforme a expressão usada nas corridas de carros. Encontramos, pois logo no 1° versículo : " Princípio da Boa Nova de Jesus Cristo, o Filho de Deus ". Rivalizar com o Ralph Schumacher no circuito de " Formula 1 " isso não é ao alcance de todos… Mas crer como S.Marcos, isso é um dom de Deus para todos. Com a condição de se lembrar de que a fé é como a Bíblia (cf.homilia : " O Evangelho, fresco ou em conserva " : ela não pode ser recortada em pedaços pequenos, e quem quiser fazer assim já não perceberá mais nada. A fé tem de se aceitar ou recusar. Não é a conclusão dum raciocínio, nem o resultado dum inquérito de opinião. Não é um assunto para discutir ; não há negociação possível. Como tratamos o Senhor ? Ele vem para nos salvar, e nós, mergulhados no pecado, haviamos-de lhe impôr condições e negociações, como aqueles seminaristas que, num elo repentino de zelo intelectual tinham organizado uma discussão sobre os anjos, para chegarem à conclusão que não existiam ?

       No fim do seu evangelho, S.Marcos mostra-nos a fé do centurião como sendo o modelo da fé cristã : " Realmente, aquele homem era o Filho de Deus ! " (15,39). Este homem era pagão… Ora, ao ver Jesus a morer na Cruz, ele faz a sua profissão de fé. Admirável !

       No entanto, no capítulo 8, a fé dos Doze, daqueles que estavam com Jesus desde havia já bastante tempo, esta fé proclamada por Simão Pedro no evangelho de hoje, ainda não chegou a este ponto. S.Marcos mostra-nos uma caminhada, um itinerário com étapas sucessivas. Mas essa caminhada é differente da caminhada do povo, bem como dos opositores de Jesus (Herodes, os fariseus, os escribas) .

       Todos são confrontados com uma pergunta que os inquieta, que é inevitável : Quem é Jesus ? Essa pergunta já é feita no capítulo 6(14-16) : " Como o nome de Jesus tornava-se célebre, o rei Herodes ouviu falar nele. Diziam : " É João Baptista : ressuscitou dentre os mortos… por isso é que tem o poder de fazer milagres ". Outros diziam : " É o Profeta Elias ". Outros ainda : " É um Profeta como os de outrora ". Herodes ouvia essas palavras e dizia : " Aquele a quem mandei cortar a cabeça, João, eis que ressuscitou ! "

       Nessas palavras, reonheceis com certeza a resposta à primeira pergunta de Jesus no evangelho de hoje (cap.8) . Isso é que qualificamos de " inclusão " : " A inclusão semítica é um procedimento literário pelo qual uma ideia idêntica é exprimida com fórmulas muito semelhantes, no princípio e no fim de um (ou vários) trecho(s) ; assim fica evidente o princípio e o fim duma unidade literária " (H. Van de Busssche). Mediante este procedimento da inclusão, S.Marcos dá a perceber que essa é mesma a pergunta esencial que se pode fazer naquela " secção dos pães. Ao contrário das opiniões comuns, a fé de Pedro e dos Doze não é uma fé que brota como que um géiser (a fé do centurião), mas sim uma fé que cresce lentamente, por étapas sucessivas.

       Assim, encontramos, na boca de Jesus, algumas expressões significativas :, como estas :

- Escutai-me todos e percebei bem…. (7,14) ;
- Tendes olhos e não olhais, tendes orelhas e não escutais ? Não vos lembrais ? … (8,18) ;
- Ainda não percebeis ? … (8,21) ;

       Aquelas incompreensões têm afinal as suas raízes nos corações :

- Ainda não tinham percebido o significado do milagre dos pães : o coração deles estava obcecado … (6,52)
- Aquele povo honra-me com os lábios, mas o seu coração fica longe de mim … (7,6)
- Portanto, também vós sois incapazes de perceber ? (7,18)
- É de dentro, do coração do homem, que saem os pensamentos perversos … (7,21) ;
- Porquê é que discutais sobre esta falta de pão ? Não vedes ? Ainda não percebeis ? O vosso coração ainda está obcecado ? ;;; (8,17)

       Aquele lentidão de alguns na caminhada da fé , este endurecimento também, esta recusa de acreditar da parte de outros, todas aquelas atitudes, S.Marcos as apresenta como que uma espécie de espelho no qual os cristãos da sua comunidade de Roma se podiam reconhecer… um espelho no qual também nos podemos nos olhar a nós mesmos, na medida em que aceitamos um exame sério do nosso coração. Nesta perspectiva, deixai que vos faça três pergunatas.

       1a – Aquele Jesus que encontro na Eucaristia do domingo, quem é ? Quem é para os homens ? Quem é para mim : o mesmo, ou alguém totalmente único ? Ou seja : a minha fé em Jesus-Eucaristia será ou não totalmente diferente des ideias comuns , na moda do tempo actual ? … ainda que não seja já perfeita.

       2a – Qual é a minha caminhada na fé ? Essa fé estará a crescer, lentamente talvez mas certamente ? Ou tornar-se-á cada vez mais morna e diluida, só " dos lábios " ?

       3a – O que é que faço eu para crescer na " inteligência da fé "?

       Não creio na medida em que comprendo, claro ; pois essa medida é muito estreita para Deus. Era mais exacto dizer que eu comprendo na medida em que creio. Com efeito compreender não é nada contrário à dignidade do homem ! Não agir conforme a razão, isso é que é contrario à natureza de Deus. Foi mesmo isso que Bento XVI acaba de lembrar durante a sua viagem na Baviera.

       Reparastes que essa viagem não chamou muito o interesse dos " medias " - uma vez que era bem recebido, não tinha nada de interessante ! – até ao momento em que teve a audâcia de falar na verdade do cristianismo, baseado na fé, mas na fé que não exclui a razão, ao contrário do Islão, o qual, por esse motivo, é mais acessível à tentação de usar da violência para converter os " descrentres ".

       A fé cristã tem a sua origem no Oriente, mas só conseguiu desenvolver-se graças ao encontro com a filosofia grega. O Papa citou Théodore Khoury, theólogo em Münster, quem publicou uma parte do diálogo entre o imperador bizantino Michel Paléologue com um Persa culto acerca do cristianismo e do Islão, e sobre a verdade de cada qual, no fim do século XIV. Neste contexto, Khoury cita uma obra do célebre islamólogo francês R.Arnaldez ; esse explica que Ibn Hazn declara que Deus não está ligado pela sua própria palavra e que nada o podia obrigar a dizer-nos a verdade. Se Ele quisesse, o homem deveria praticar até a idolatria.

       Conforme esta apresentação de fé do Islão, nada de Deus se pode comprender. Temos que crer, e mais nada. Ora, essa visão da fé, não só Bento XVI nunca disse que era a de todos os muçulmanos, mas acrescentou que ela se conseguiu infiltrar na fé cristã. Bento XVI reparou que no fim da Idade Média e até hoje, através da Reforma protestante e das Luzes, algumas tendências se desenvolveram na teologia católica, de maneira a romper a síntese do espírito grego e do cristão. (Aqui o Papa acrescenta – longamente - então que a Igreja sempre defendeu uma analogia entre Deus e o homem, entre o Espírito criador e a nossa razão criada)

       … Aquela parte do discurso não chamou a atençõ dos ouvintes, evidentemente… No entanto , é essa que nos diz mais respeito a cada um de nós. Todas estas reflexões parecem possivelmente muito longe da nossa fé de cada dia. Mas não é verdade Pois aquela tendência de querer recusar o carácter razoável da fé infiltrou-se na mente de muitos, até sem eles dar por isso.

       Quando se diz : " Creio em Deus, mas não sei Deus ", o que já li eu recentemente escrito por uma senhora que se apresenta como católica praticante empenhada num movimento de Igreja, então vai-se bem depressa para um divórcio entre fé e razão, sem medir as consequências desastrosas. Uma dessas consequências é esta : já não há base firme para dar testemunho da sua fé num diálogo inter-religioso sereno. Chega-se a pensar que Deus poderá fazer o trabalho em tempo oportuno, que basta fiar-se nele, e tudo isso em nome da caridade cristã, na qual a instituição da Igreja católica não percebeu absolutamente nada. " Frente ao error, a primeira caridade é dizer a verdade " dizia alguém ainda não contaminado pelo " virus " do fideismo. Também é isso que se diz numa oração conhecida, (atribuida por erro a S.Francisco de Assis), usada na Liturgia das Horas : " Qunado se instala o erro, possamos proclamar a verdade "

       Na 2a parte do evangelho, Jesus, que disse a Pilatos : " Eu nasci, e vim no mundo para isto : dar testemunho à verdade. Quem pertence à verdade escuta a minha voz (Jo 18,37) ", aquele Jesus lembra-nos que isso só é possível com a condição de dar a sua vida. " Tu és o Messias " dizia Pedro. " Nós proclamamos um Messias cucificado, escândalo para os Judeus, loucura para os pagãos ", precisa S.Paulo (1 Co 1,23). É mesmo o que faz o Papa. E é isso que somos todos chamados a fazer com ele.


 

(Tradução : G.Jeuge)

Quando Deus manda sinais (trad. de "Quand Dieu fait signe")

Walter Covens #homilias em português
17 TOB evNo 17° Domingo do Tempo comum, deixamos de utilizar o Evangelho segundo S.Marcos -isso durante algumas semanas, menos no dia 6 de Agosto (quando cai num domingo, por ser neste dia a Festa da Transfiguração do Senhor ). A Liturgia transporta-nos de repente no Evangelho de S.João. Afinal é lógico : S.João dá-nos o conteúdo do ensinamento de Jesus, que S.Marcos tinha dito ser muito longo.

       Na passagem de S.João que encontramos no 17° domingo comum (princípio do capÍtulo 6) verificamos também uma mudança importante: antes, estávamos em Jerusalém enquanto que, no capítulo 6, estamos do outro lado do lago de Tiberíades. Todas aquelas deslocações, outrora, na vida de Jesus, como hoje na liturgia, são uma oportunidade para medir a diferença entre os ouvintes ocasionais, que não percebem nada, e os verdadeiros discípulos de Jesus, que também não percebem tudo, mas pelo menos se tornam "ensináveis". 

       O Evangelho de João não é um evangelho fácil ; pelo menos é o que se diz. Enquanto que o de S.Marcos se destina aos catecúmenos ou às crianças do primeiro ano de catequese), o de João destina-se aos intelectuais, ao crente bem formado que já tem uma longa expriência. "Aqui, escreve o Cardeal Martini, é impossível ler uma página nem sequer algumas linhas, e perceber ao mesmo tempo o sentido completo das coisas escritas ; pois, não se sabe porque são ditas nesse momento, nem que significado exacto têm. Muitas vezes, os comentários explicam coisas evidentes, que já temos percebido, mas não respondem às perguntas que as pessoas se fazem realmente quando lêem esse evangelho de S.João : porquê o evangelista insiste, neste lugar, naquela ideia. Etc…."

       No que diz respeito àquela passagem do 18° domingo comum: o milagre dos pães, o qual, juntamente com a marcha de Jesus sobre as águas, introduz o longo ensinamento de Jesus, é impossível dizer só ao povo que é necessário não disperdiçar os alimentos, que é preciso partilhar com aqueles que não tém nada para comer, mesmo que seja a verdade, e muito actual. Mas o problema não é este! O problema não consiste em sabermos o que podemos fazer dizer pelo texto evangélico para "colar" à actualidade, cheia, infelizmente, de catástrofes, de guerras, de fomes. Nesse caso, seríamos daqueles discípulos ocasionais condenados a não perceber nada nos sinais de Deus. O problema é este : saber o que S. João e o Espírito Santo nos querem dizer. Ora, isso exige um mínimo de honestidade intelectual . Não queremos dizer que vamos logo perceber tudo. Pelo menos isto significa que nós aceitamos não compreender, mas que queremos procurar compreender cada vez melhor, na fidelidade, na duração, como Sta Teresinha de Lisieux, sem desanimar.

       Jesus realiza o sinal dos pães, não para encher os ventres, mas sim para significar a vida divina que nos veio dar: "Amen, Amen, digo-vos: estais à minha procura, não por ter visto sinais, mas sim por ter comido pão com saciedade. Não trabalheis pela comida que se perde, mas pela que se conserva até à vida eterna, a que vos dará o Filho do Homem, Ele que Deus Pai marcou do seu cunho." (Jn 6,6-27).

       Esse também é o sentido da ordem de Jesus: "Recolhei os pedaços que sobram, afim de que nada se perca". Aquela ordem dá a entender que a comida dada por Jesus não é perecível, ao contrário do maná no deserto. O pão que Jesus dá não é um pão efémero mas é uma fonte permanente de vida. O maná apodrecia caso se apanhasse mais do que o necessário para o dia. O pão de Jesus, ele, permanece para todas as gerações futuras, para toto o tempo da Igreja.

       Filipe, que pertencia ao grupo dos verdadeiros discípulos de Jesus, daqueles que o seguiam em toda a parte, não percebeu a pergunta que Jesus lhe fazia para o educar: "onde é que podíamos comprar pão para lhes darmos de comer?" E Filipe ainda disse: "o salário de 200 jornadas de trabalho não chegava para lhes dar só um bocadinho de pão." Jesus bem sabia o que era preciso fazer numa situação destas, e como remediar, mas fazia a pergunta a Filipe para que ele percebesse que é impossível a um homem resolver sózinho este problema, por muito generoso e muito esperto que seja. O homem nunca poderá saciar o homem. Só Jesus é quem pode satisfazer totalment todas as necessidades e todos os desejos. O que o homem pode fazer é só isso: obedecer à ordem de Jesus: "Mandai-lhes sentar-se…."

       A resposta justa à pergunta de Jesus será dada por Simão-Pedro ao dizer: "Para quem iríamos? Tu tens as palavras da vida eterna" (Jo 6,68). O perfil de Filipe, no entanto, não é o mesmo da multidão que estava a seguir Jesus uma vez, quase por acaso, porque tinha visto os sinais que Jesus realizava ao curar os doentes, essa multidão que, a seguir, queria prender Jesus à força e fazer dele o seu Rei, a mesma que haverá de dizer, em fim de contas: "O que ele diz é intolerável, não o podemos escutar mais! (Jo 6,60) Aqueles que percebem o sinal de Jesus só num sentido terreno, por não estarem realmente à procura síncera do dom de Deus, aqueles não se abrem à fé e ficam incapazes de perceber o sinal.

       Filipe pertencia, com o discípulo que Jesus amava , ao grupo daqueles a quem havia-de dizer: "Já não vos chamo servos (…...) mais chamos-vos amigos" (Jo 15,15). Era daqueles que acolhavam o mistério da Encarnação e por isso se deixavam levar até à intimidade com o Senhor. Jesus o tinha escolhido para que fique consigo (cf. Mc 3,14). Eis o mérito principal do verdadeiro discípulo : ficar com Jesus, até no meio das provações (cf. Lc 22,28).

       Essa fidelidade no tempo constituí, por assim dizer, o "numerus clausus" para ser recebido na compreensão do ensinamento de S. João. Se é verdade que, no evangelho de João não se pode ler uma página como a de hoje e reter só umas coisas vulgares, (como a B.A., do escuteiro por ocasião dum piquenique campal) é porque, conforme a hipótese do Cardeal Martini, "no evangelho de S. João, que é o evangelho dos símbolos, das comparações e das figuras, a segunda parte (13-20) faz perceber a primeira (1-12)." Numa homilia como esta, só posso, está certo, indicar o caminho. Afinal, se o evangelho de João é difícil de perceber, a culpa não é de S.João: é nossa, porque nos falta a fidelidade, e portanto a maturidade, na nossa relação com Jesus.

       Um segundo aspecto, também muito importante, inseparável do primeiro, presente no nosso texto, é que aquela maturidade da fé não pode ser alcançada a não ser dentro da comunidade dos crentes.

       O Padre Léon-Dufour apresenta assim o capítulo 6 de S. João: "Antes de começar a leitura do texto e do seu desenvolvivento, é preciso olhar para o evangelista a trabalhar. Herdeiro de Israel, não só aderiu ao Enviado escatológico de Deus, também é um cristão que vive da sua fé, e a Boa Nova que transmite diz respeito sobretudo à sua comunidade".

       Separado do sinal, o discurso sobre o Pão de vida pode sugerir que a vida cristã é só uma relação individual com Jesus. Mas se o acto de fé é muito pessoal, não é nada individual. Nada mais pessoal e nada de menos individual que o acto de fé em Jesus. Por isso é que Jesus não quer repartir alimentos como se fosse o acto duma organização humanitária qualquer. Ele convida o povo para vir à mesa, conforme o costume das refeições comuns. Além disso Ele é quem preside essa comunidade de mesa. Pois, ao contrário dos Sinópticos, S. João diz que Jesus é quem faz a repartição dos 5 pães de cevada (não dos peixies!). A cevada era mais barata do que o trigo, amadurecia mais depressa também, de tal modo que os pães de cevada eram usados para a oferenda litúrgica das primícias. Esse é mais um indício para uma melhor compreensão du sinal dos pães.

       Uma vez que o almoço oferecido por Jesus não se come sózinho, mas em comunidade, essa comunidade não significa por isso uma maioria. À partidaa, está muita gente, é verdade. Mas, logo que Jesus se afasta dela para evitar os seus desígnios , a multidão começa a diminuir ; afinal Jesus fica só com os Doze. É de notar que S.João fala numa grande multidão só duas vezes no seu evangelho : aqui e por altura da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Não pode ser por acaso. Nos ambos casos sabemos o que ficou da multidão. Se a fé diz respeito à comunidade, isso não significa ficar dentro da maioria. Hoje em dia, ha um espécie de humanismo que quase faz a unanimidade dos nossos contemporáneos. No entanto, não é dentro daqueles vastos círculos que se encontra uma porta aberta à luz do evangelho. O humanismo pode ser uma maneira elegante mas enganadora de manter Deus de lado, ou de se desembaraçar dEle quando, em fim de contas, não parece razoável. Assim é que, no fim, adoramos o homem (ou Satanás) em vez de adorar só a Deus.

(tradução : G. Jeuge)

O é que vamos comer?

Walter Covens #homilias em português
 
16 TOB ev
 
 
 
Fiéis ao nosso princípio "ananas natureza", lembremo-nos de que estamos na "secção dos pães". Lembremo-nos também de que, entre o evangelho do domingo passado e o de hoje, uma parte do texto foi omitida.

       Entre os dois, São Marcos relata a morte de João Baptista no quadro dum banquete, organizado com aparato muito importante por Herodes , o qual "gostava de o ouvir … mas, a seguir, ficava muito embaraçado" (Mc, 6,20). Esse é mesmo o exemplo do "almoço mau". A comida daquele almoço é o fruto bichoso de quem aceita comer a Palavra de Deus, mas com a condição de que seja acompanhada pelos compromissos do mundo, no caso : o adultério. Esta é, como se diz em francês, a "mal-bouffe" (a comida muito detestável) no seu esplendor. Além disso, pormenor macabro, uma vez que ninguém pode servir dois donos ; Herodes acaba por servir à sua concubina a cabeça de João… "num prato". Bom apetite!

       Uma "chave de leitura" para o envio dos Doze em missão, como já vimos, é a referência ao jantar do Éxodo com Moisés, o pastor, e também ao facto de que o homem não vive só de pão mas de toda a palavra que saí da boca de Deus.

       Ao contrário do festim de Herodes, o regresso dos Doze (no evangelho deste dia) fica marcado pelo facto de que "nem tinham sequer o tempo de comer". De comer o quê? Jesus não tinha ordenado para não levar pão para o caminho (Mc, 6,8)? "Os Apóstolos reunem-se com Jesus, e dizem tudo quanto tinham feito e ensinado". Caso tivessemos de escolher um convite na casa de Herodes ou um convite na de Jesus e dos Doze, sabendo qual é a ementa nos dois casos, qual seria a nossa escolha? Essa não é uma pergunta vã. É uma escolha que devemos fazer continuamente. Faremos a escolha boa?

       No que diz respeito ao almoço de Jesus com os Doze, ainda estamos no "aperitivo"… Jesus disse-lhes: "Vinde à parte num local deserto, e descansai um pouco". Jesus tem compaixão em primeiro lugar daqueles que tinha enviado. A missão deles não foi um mero descanso. Aquela compaixão de Jesus para com os Doze será logo a seguir apagada pela piedade dele para com as multidões que chegam, tal como a simpatia de Herodes para com João o será pela sedução da filha de Herodiades ? As multidões haverão de desempenhar o papel de "desmancha-prazeres"? Os Apóstolos haverão de ser vítimas disso?

       Resposta: "Então, começou a instruí-los". Depois do aperitivo, eis o prato principal. S. Marcos não nos dá os pormenores da ementa, mas temos disso uma ideia bastante certa, graças a S.João (ch.6). No entanto, S. Marcos não se esquece de nos dar um detalhe: "Então, começou a instruí-los durante muito tempo" Até o próprio S. Francisco de Assis parece ter esquecido, ele que dizia aos seus discípulos para fazer "discursos breves, conforme o exemplo de Jesus que falou brevemente na sua vida terrena" (2a regra). Jesus pus-se a instruí-los não brevemente, mas sim durante muito tempo.

       Os Doze, apesar de estar cheios de fome e muito cansados, não perderam nada por ter que esperar. Pelo contrário, que pechincha! Graças à multidão que chega sem ter sido convidada, eles vão regalar-se muito mais do que previsto. A "sabedoria" do mundo diz "Ventre faminto não tem ouvidos". Herodes mostra-nos que é o contrário que é verdade, que é o ventre cheio que já não tem ouvidos. Para ouvir bem e saborear a Palavra de Deus, nada melhor do que um bom jejum! Jejuamos às sextas feiras todas para ter melhor apetite pela Palavra do domingo? Neste caso, "(o Senhor teu Deus) tornou-te humilde, fez com que tivesse fome, deu-te o mana que nem ti nem os teus pais tivestes conhecido, afim de te mostrar que o homem não vive só de pão, mas também de tudo quanto saí da boca de Deus" (Dt 8,3). Portanto o apetite é o melhor dos molhos.

       "Então, começou a instruí-los muito tempo". Parece-me que essa palavra do evangelho merece a nossa reflexão. Vivemos numa sociedade de abundância, "de consumo", e temos tão poucos ouvidos para a Palavra. Como dizia alguém: "Quando se escuta uma homilia, depois de poucos minutos, começamos a tussir". Temos férias, e aproveitamos… para escutar a Palavra de Deus ainda menos do que de costume. Os pobres, que nunca têm férias, que nem sabem sequer se poderão comer um bocadinho de pão ou uma malga de arroz antes da noite, eles escutam longamente aquele que os instrui longamente. E quando, impelidos por uma generosidade excepcional, nós os ricos, organizamos transportes de alimentos para levar às vítimas des guerras e das catástrofes, alguma comida de "primeira necessidade", os pobres, como sucedeu durante a guerra dos Balkãs, respondem-nos: "Obrigado, mas mandai-nos Bíblias" ". Isso é verdade! Mas temos esquecido!

       E hoje, como no tempo de Jesus, a maior pobreza, aquela que provocou a compaixão de Jesus, é mesmo o facto de "ser como ovelhas sem pastor". Não era a falta de pão, nem sequer a falta de Bííblias. Era a falta de pastores. Era a pobreza miserável do eunuco da Etiopia com a sua bíblia, no seu carro de luxo na estrada que desce de Jerusalém a Gaza. O Senhor teve piedade dele e mandou-lhe o diácono Filipe, um dos Sete escolhidos pelos Doze "para o serviço das refeições" (Ac 6,2). – Percebes, de verdade, o que estás a ler? – Como posso perceber se não está ninguém para me guiar?" (Ac 8,30-31). Não era normal os Doze deixar de ensinar "a Palavra de Deus para servir às mesas". Mas um dos Sete a quem os Doze tinam confiado esse serviço é enviado pelo "Anjo do Senhor" afim de anunciar a Palavra a um pagão… deixando de servir às mesas.

       Àquela pobreza, como é que podemos remediar? "Ouvi então a voz do Senhor que dizia: 'Quem mandarei? Quem será o nosso mensageiro?'" Eu respondi: 'Eu mesmo serei o teu mensageiro: manda-me'" (Is 6,8). Todos os anos, no domingo do "Bom Pastor" (4° Domingo da Páscoa), rezamos pelas vocações. Hoje, já teremos abandonado ? No entanto o Senhor não é surdo, nem de orelhas nem de coração: "Dar-lhes-ei pastores que os levarão, já não terão medo nem cansaço, nenhuma perder-se-á" (1a leitura) Então de que estamos à espera? O Senhor , Ele, está à espera dos nossos pedidos para nos dar. Se não pedimos nada, é porque não queremos nada, assim como os Samaritanos não queriam o profeta Amos: "Vai-te embora!", diziam eles (cf. Am 7,12-15).

       O Senhor convida-nos também para rezar com insistência pelos "pastores maus, que deixam morrer ou perder-se as ovelhas" (1a leitura), em vez de passar o nosso tempo a julgar e condena-los. "É verdade, escreve Chiara Lubich, fundadora dos Foccolari ( origem dos grupos de partilha da Palavra de Deus durante a Guerra) – que houve homens na história que não cumpriram dignamente a sua missão e até atraiçoaram o Evangelho, por gostarem mais da dignidade de que se sentiam revestidos do que do peso da sua responsabilidade: julgavam o seu papel mais como um poder do que como um serviço. Mas não seremos todos pecadores? Não deveremos antes de mais nada julgar-nos a nós mesmos? Se reflectimos nisso veremos os Apóstolos e os bispos, sucessores deles, com mais serenidade, porque perceberemos que a única vocação deles é ser Cristo. A maior parte dos ministros que Deus escolheu nos 20 séculos da Igreja procuraram certamente seguir esse exemplo. Se alguns se desviaram deste caminho, lembremo-nos de que Cristo, na terra, nem conseguiu evitar a traição de Judás. Cada homem foi criado livre".

       Quanto aos que julgam poder escutar a voz do Senhor no seu coração fora do ministério da Igreja, e aos defensores da "Scriptura sola" ( = "Só as Escrituras"), eles também merecem a nossa piedade, pois são vítimas do complexo "anti-pastores". Já se vêem no Céu, já chegados à santidade perfeita. Nada mais perigoso ! Certamente, a distinção entre a "economia" cristã e a "economia" judáica, é o facto de que Deus já não fala só fora: "Deus também fala no íntimo do coração; (mas) essa palavra deve ter a sua garantia e sua lei numa palavra exterior, no magistério eclesiástico." (D. Barsotti) Não seria essa a condição para uma paz verdadeira, não a do mundo, mas a de Jesus?

Através da Cruz para a Luz - Homilia do quinto Domingo da Páscoa C 2010

dominicanus #homilias em português

 

Jn 13

 

A Igreja, como uma boa mãe, é bem avisada em dar-nos um total de sete semanas de Páscoa. Precisamos, realmente, deste tempo para meditar sobre o que Cristo nos ensina através de sua paixão e ressurreição. As plantas precisam passar muito tempo na terra para absorver a luz solar gradualmente e convertê-la em alimento. Da mesma forma, nossa alma precisa de uma exposição prolongada à luz da revelação de Cristo, para absorver as graças que o Senhor quer nos dar.

 

Hoje especialmente, Ele nos lembra da estrutura fundamental da vida cristã : a Cruz e a Ressurreição. Nós já encontramos este tema nos últimos Domingos, mas Deus quer que voltamos nisso.

 

São Lucas, o autor da Primeira Leitura, tirada dos Atos dos Apóstolos, resume a pregação de Paulo e Barnabé em uma frase : « Eles exortou-os a perseverar na fé, dizendo:" Temos de passar por muitas dificuldades para entrar no reino de Deus ".  » Em outras palavras, é somente através da cruz que podemos conhecer a Ressurreição, é somente por amor e através da renúncia que podemos experimentar a alegria cristã.

 

Na Segunda Leitura, São João nos diz a mesma mensagem, mas em sentido inverso. Ele descreve o céu, onde os santos vivem em perfeita comunhão com Deus. A principal característica desta vida é que Deus « enxugará toda lágrima de seus olhos, e a morte não existirá mais; e não haverá mais luto nem pranto, nem dor, porque a primeira criação já terá desaparecido. »

 

A primeira criação é o que vemos com nossos olhos. É a nossa vida aqui e agora como membro da Igreja, ainda na estrada. Essa vida vai passar e não vai durar para sempre. Mas por agora, ela é um « vale de lágrimas », de dor e de luto.

 

Isso é uma grande consolação para nós. Isso significa que nós não temos que fingir ter tudo. Significa que Deus sabe que a vida não é fácil, ainda bem ! Por que através dessas dificuldades da vida, ele quer nos ensinar seu « estilo de vida  ». Nossa sociedade é tão obcecada pelo prazer, o conforto, a saúde, a obsessão de permanecer jovem e manter aparências que até mesmo os cristãos tendem a esquecê-lo. Facilmente nós deixamo-nos ir pensando que a única vida que vale a pena de ser vivida é uma vida sem dor.

 

O exemplo dos santos é para nos lembrar que, na verdade o oposto é verdadeiro: que é só através da Cruz que podemos alcançar a Luz. Vocês podem já ter ouvido falar de Marthe Robin. O primeiro livro, ou pelo menos, um dos primeiros livros já escritos sobre ela após sua morte, em 1981, é intitulado « A Cruz e a Alegria. »

 

Nascido em 1902, lutou desde a idade de 16 anos contra uma doença que provoca uma dor insuportável; doença que foi diagnosticada em 1942 como uma « encefalite epidémica ». Permanecendo o temp todo na cama, progressivamente ela perdeu a esperança de uma cura. Dia 29 de março de 1928, ela disse :

 

« Para mim, a Páscoa vai encontrar-me na minha cama, na minha tão pobre cama, onde me corto em pedaço; enfim, a vida é curta, mas uma outra mais longa e feliz nos espera, que doce consolo, não é ? »

 

Com o sofrimento físico, há também a solidão que se tem que assumir:

 

« Meus dias passam uniformemente monótonos e similares, sendo sozinha a maioria do tempo... »

 

Poucos meses depois, com a doença progredindo, Martha conhece o desânimo :

 

« As fases da minha vida foram escritas num quadro-negro. A própria vida se encarregou em tirar minhas ilusões e destruir meus planos ». (18 de agosto de 1928)

 

Mas acontece então, num dia em dezembro daquele ano, Martha Robin viu no momento da recepção do Sacramento dos Enfermos um momento decisivo a partir do qual tudo vai se iluminar e fazer sentido. Esta doença, que poderia ter conduzido-a a uma lenta e constante destruição da sua pessoa em todos os níveis é, por paradoxal que pareça, o trampolim para uma vida nova que vai ser construída de forma diferente :

 

« Depois anos de angústia, após várias provas, físicas e morais, eu ousei, eu escolhi Jesus Cristo ... O Sagrado Coração de Jesus na cruz é a morada inviolada que eu escolhi na terra. »

 

Martha tem encontrado então a resposta para a questão do significado de sua vida de doente. Sua vida continuará a se desdobrar na doença, mas agora integrada e aceitada com alegria :

 

« Todo o meu ser aceita o sofrimento e a minha incapacidade física quase total, de maneira mais generosa e sempre mais carinhosa: isso num maior abandono, um maior desapego, uma maior renúncia a tudo. No entanto, como a natureza tem dificuldade há vezes em constatar o seu desamparo, e uma infinidade de coisas que são como a tela da vida. Mas a gente permanece ainda muito calma, a gente dá sorriso com alegria e amor, apesar da dor que sufoca, apesar das dilacerações que torturam e dos sofrimentos lancinantes, apesar das provas desoladores e do desgosto amargo, quando amamos a Jesus e o amamos de amor puro. »

 

A vocação de Marthe Robin é fora do comum, mas a sua « tela » é de toda a vocação cristã, incluindo cada um de nós: a Cruz e a Ressurreição, através da Cruz para a Luz.

 

Hoje a Igreja nos lembra novamente que isso é o modelo da vida cristã. É de se perguntar o porquê. Por um lado, é uma lição que nós tendemos a esquecer muito facilmente, então nós realmente precisamos ouvir esse lembrete. Mas por outro lado, Deus quer que não deixamos passar esta oportunidade, e não nos esquecemos disso novamente.

 

São Lucas escreve nos Atos que Paulo e Barnabé visitaram várias comunidades cristãs para fortalecer a coragem dos discípulos, exortando-os a perseverar na fé. Será que Deus não está exigindo de nós que façamos o que foi feito por Paulo e Barnabé, e reforçar a coragem de quem se dobra sob o peso da sua cruz ? Nós todos vivemos com pessoas que precisam de ser incentivadas pelo amor de Jesus.

 

Será que não é por essa razão, entre outras, que a Igreja escolheu a passagem do Evangelho de hoje em que Cristo nos lembra de seu « mandamento novo » :

 

« Dou-vos um novo mandamento : que vos ameis uns aos outros. Como eu vos amei, vós também deveis amar uns aos outros. »

 

Hoje o Espírito Santo nos envia, como ele enviou Paulo e Barnabé, para fortalecer e exortar aqueles que podem estar em processo de colapso. Para nós conseguirmos isso, ele nos derá a força e sabedoria do próprio Cristo na Santa Comunhão. Temos que prometer-lhe de fazer um bom uso disso para espalhar a Boa Nova mesmo que seja a uma só pessoa, de que o caminho para a ressurreição é através das dores da Cruz.

 


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dominicanus #homilias em português

 

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Os Atos dos Apóstolos nos falam hoje a respeito da vida da Igreja primitiva, há dois mil anos atras. A fé cristã estava sendo disseminada em toda a bacia do Mediterrâneo, em primeiro lugar nas comunidades judaicas. São Lucas pinta o retrato de uma comunidade de crentes vivos e entusiastas, de cristãos que estão cientes da necessidade de compartilhar com o máximo possível de pessoas a Boa Nova que eles ouviram, de cristãos cheios de alegria apesar de serem ainda enfrentandos a perseguição, o ciúme, as calúnias. Cristãos que, aliás, não são perfeitos em si. Nos capítulos anteriores, lemos que, já na Igreja primitiva, existiam cristãos desonestos. Mesmo cheios do Espírito Santo, os cristãos não são nada menos que seres humanos, com todas as suas fraquezas. É isso mesmo que estamos vendo hoje de uma maneira que doi muito.

O conselho dado por Paulo e Barnabé ainda é válido. Incitam-nos a não desanimar-nos, especificamente para permanecermos fiéis à graça de Deus. Paulo e Barnabé não chamam primeiro a fazer esforços ascéticas. Se trata aqui de outra coisa que segurar a barra, embora às vezes pode ser necessário. A perseverança é principalmente demonstrar uma atitude de abertura à graça de Deus, à proposta de um Amor pessoal que é Deus e que nos é dado permanentemente como um dom. Se trata portanto de receber algo (alguém), muito mais que fazer ou dar.

A pergunta que surge então é a seguinte : o que é essa graça que pode nos fazer transbordar de alegria, que nos dá força para perseverar e percorrer o mundo afora para compartilhar o Evangelho com os outros ? Essa graça teria alguma relação com o núcleo do próprio Evangelho ? De qualquer maneira, é neste sentido que o Evangelho desse Dia Mundial de Oração pelas Vocações nos convida a procurar para a resposta.

"As minhas ovelhas ouvem a minha voz. Eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna."

Vamos fazer três observações a respeito dessa palavra bem conhecida do capítulo 10 de São João.

1/ O Senhor nos conhece. Ele nos ama. Não se pode conhecer bem alguem, a não ser amando-o. O Senhor nós conhece de A a Z. Seu desejo é dar-nos a vida, uma vida abundante. Quem ama alguém deseja para ele o que existe de melhor. Um pai ou uma mãe daria tudo para a felicidade dos seus filhos. Quanto mais Jesus por nós !

2/ O Senhor nos conhece. Ele nos ama. E é por isso que ele nos chama. Talvez o essencial da Boa Nova é que Deus chama cada um de nós de maneira única. Ele não chama "em geral". Ele não nos chama de maneira arbitrária, como se fóssemos números esperando numa fila de espera na frente de uma administração pública qualquer. Não! Quando Jesus chama, ele faz isso, animado por um desejo de amor pessoal para todos. A maioria dos homens são chamados a encarnar o Amor infinito de Deus para a humanidade na aliança de casamento. Mas Jesus também chama alguns para seguir o sacerdócio ou à vida consagrada. Tem sido assim desde o início da Igreja. Dois mil anos depois, nada mudou. Ainda hoje, homens e mulheres são chamados a uma vida consagrada e integralmente dada a Deus. Será que acreditamos ? Será que ousamos acreditar nessa forma que Deus tem de se interessar em cada um de nós individualmente ?

3/ Isso nos leva ao terceiro ponto: as ovelhas ouvem a voz do pastor e elas o seguem. A confiança (fé) das ovelhas no seu pastor é tão grande que eles estão dispostos a colocar suas vidas em risco. Eles não apenas se contentam com retórica ou votos piedosos. Eles mostram a sua confiança na realidade da existência de cada dia. Estamos prontos para anunciar a Boa Nova do apelo pessoal de um Deus de Amor no mundo de hoje e, acima de tudo, crer nisso e viver disso nós mesmos? Será que temos a coragem de acreditar na radicalidade do Amor de Deus em palavras e atos, e assim permitir que os jovens possam  encontrar a Boa Notícia de sua vocação ?

A Igreja de Jesus Cristo precisa de sacerdotes, de diáconos e de pessoas consagradas. Mais que nunca ! Não é principalmente para tapar buracos, mas para testemunhar de uma forma especial esta Boa Notícia de Deus que chama cada homem à plenitude da vida.

Para encerrar, não esqueçamos que este domingo é essencialmente o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Então oremos para pedir a graça de poder viver a nossa vocação individual no casamento, no celibato (mesmo não escolhido), no sacerdócio, na vida consagrada, de maneira a despertar na juventude cristã de nossas paróquias e de comunidades o desejo de responder também plenamente a própria vocação.

Padre Walter Covens

 

A CARIDADE DESPREZADA DO PROFETA (Lc 4, 21-30)

Walter Covens #homilias em português
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No dia seguinte à festa da conversão de S. Paulo, recordávamos S. Tito e S.Timoteu. Foi a Timoteu que .Paulo escreveu a carta na qual se encontra a palavra que me inspirou o título do vosso « Blog » preferido : « Homilias a tempo e a contratempo » :

« Proclama a Palavra, intervem a tempo e a contratempo, denuncia o mal, faz censuras, dá coragem, mas sempre com muita paciência e com a vontade de ensinar (…) Em todas as coisas, conserva o bom senso, suporta o sofrimento, trabalha ao anúncio do Evangelho, cumpre até ao fim o teu  ministério. (2 Tim 4, 2  .5 ; cf antífona do Magnificat do dia 26 de janeiro).

É isso que se podia  qualificar de « caridade do profeta » ou « caridade da ortodoxia ».

« Virá um tempo em que não suportarão mais o ensino sólido (…) Não aceitarão ouvir a verdade e olharão para lendas mitológicas ». (v. 3a…4).

Quem, melhor do que Jesus, praticou o conselho de S.Paulo ? Não será Jesus o primeiro dos evangelizadores ? Ao usar dessa palavra, lembro-vos talvez um daqueles famosos « televangelistas » americanos que enchem salas imensas onde as pessoas ficam sentadas em cadeiras muito confortáveis. Aliás, as celebrações deles são transmitidas a muito custo pelos canais da televisão, não só nos Estados Unidos, mas também no mundo inteiro.

Ora, S.Lucas mostra-nos Jesus na sinágoga de Nazaré… Jesus que conhece um fracasso pungente. No entanto, Lucas mostra-nos Jesus como o modelo dos evangelizadores : « um evangelizador falhado ». Isso é tanto mais estranho que não se trata dum episódio isolado, uma espécie de excepção à regra. É um episódio que é um programa autêntico.

O fim do terceiro Evangelho é este : ser uma espécie de manual do « evangelizador perfeito ». Isso foi sugerido numa tese de doutoramento proferida no Instituto Bíblico pontifical por um estudante americano, que mostrou como todos os passos característicos de Lucas se inspiram provavelmente do grupo de evangelizadores qui percorriam toda a região de Israel e da Siria (cf. homilia do domingo passado : a formação dos evangelhos), a quem, sem dúvida, S.Lucas pertencia . Foi isso que motivou Lucas para prolongar o seu Evangelho pelos Actos, de tal modo que possa dar muitos exemplos de evangelização , à moda de Jesus, na Igreja primitiva.


Desde o princípio, e não só no fim da sua vida, aqueles jovens evangelizadores encontraram a perseguição : em primeiro, da parte dos Judeus, a seguir da parte dos Romanos. No entanto, S.Paulo, que tinha uma grande experiência disso, escreve : « Um tempo virá… ». Portantp, já pensava num futuro diferente do presente e do passado. Isso dá para pensar…

Hoje em dia, qual é a situação ? Nunca a Igreja foi tão perseguida. Nunca, na história da Igreja, a Boa Nova encontrou tal oposição ; nunca houve tantos mártires a derramar o seu sangue pelo Evangelho. Mas, nos países, qualificados de « livres », a oposição mostra-se mais sensa. Por exemplo, é costume opôr, explicitamente ou não, conscientemente ou não, a ortodoxia ( a doutrina justa) e a ortopraxia ( a acção justa), minimizando a primeira e valorizando muito a secunda. Bento XVI notava bem que « aquele quem segue a doutrina justa parece ter um coração estreito, duro, possivelmente intolerante. Tudo dependeria,em fim de contas, da acção justa, enquanto que era possível discutir sobre a doutrina. Os frutos da doutrina seriam só o que é importante, enquanto que os meios usados para chegar à acção justa seriam indiferentes.

Voltaire já dizia que Deus não existe, mas que não se deve dizer muito, uma vez que a religião pode ser útil para manter a ordem na sociedade. Só conservava da fé o que é útil : os valores cristãos, como se diz agora. Foi disso que nasceu, em fim de contas, um humanismo ateu, uma caridade sem Deus e finalmente contra Deus. Disso, nasceu também o marxismo, e o ateismo prático.

Depois da morte do « Abbé Pierre », e no engasgamento dos medias e da opinião pública, meditei muito nisso. No dia mesmo da sua morte, publiquei um artigo a este respeito, no qual escrevia : « Acabamos de aprender o falecimento do Abbé Pierre, plebiscitado pelos Franceses, depois de Zinédine Zidane ( !!!), como sendo a figura mais estimada da França. Uma aposta para um padre católico !  A audiência era muito mais importante do que  a de qualquer bispo – ou até cardeal- francês. A acção dele a favor dos pobres é evidente ? No entanto, e principalmente por ser padre (« ser » porque « é » sacerdote para sempre), as trombetas da reputação são muito mal embocadas. »

Lembrava eu então as declarações do Abbé Pierre a favor da homoparentalidade (mas não da homosexualidade), da contracepção, do casamento dos padres, do sacerdócio das mulheres, mas contra a obrigação da Eucaristia dominical, contra o dogma da Imaculada Conceição e da Assunção da Virgem Maria, contra o Santo Padre e o modo como ele dirige a Igreja. Tudo isso em nome da caridade. « Julgamento severo » replicaram alguns. « Nem tanto como os deles », respondi. Julgamento a contratempo, está certo. Pois, não ouvi muitas vozes  a pôr um bemol ao concerto dos louvores. Só no fim da semana tive conhecimento dum aviso parecido com o meu :

« Uma tendência à deconfessionalização não protegeu a própria obra do Abbé Pierre. Sem querer emitir julgamento definitivo sobre isso, seja-nos permitido sublinhar, na hora da disparição do apóstolo moderno da caridade, que o humanitarismo, por honrável que seja, não toma necessariamente a medida mais ultima do homem, e que, apesar de tudo, o futuro tirará sempre na Revelação o sentido mais determinante da eminente dignidade dos pobres, uma vez que está ligada  intimamente à caridade dum Deus vivo » (Gérard Leclerc)

Vários cristãos de França, muito empenhados no anúncio do Evangelho, por se sentirem mais ou menos marginalizados, alegram-se da popularidade do Abbé Pierre, e deploram o conteúdo do meu artigo. Assim, alguém escreve-me, num correio electrónico :

« Hoje em dia, é costume entre os medias ‘inchar curas’, de todas as maneiras : todos os pretextos são bons. Enquanto temos uma figura católica –mediática – que tem boa fama… »

Isso é verdade : a Igreja não tem « boa fama ». Quando os medias fingem fazer uma excepção a favor duma figura estimada por eles « carismática », a tentação é grande, então, de seguir o movimento. Não seremos então vítimas da nostalgia dum certo triunfalismo, apesar do que Jesus nos deixa entrever ?

« Aí de vós quando todos os homens disserem bem de vós : foi assim que os pais deles trataram os falsos profetas » (Lc 6, 26)

E, no trecho do evangelho de hoje :
« Nenhum profeta é bem recebido no seu país »

Jesus é categórico : NENHUM. Quão é duro ouvir isso ! Para os habitantes de Nazaré, o que era duro, era acreditar que a salvação não era só para si, mas também para « a multidão », para os paganos também. Para nós, o que é duro, é que a salvação, que é para a multidão, só seja acolhida por uma menoridade. Os habitantes de Nazaré teriam gostado de ter o monopólio de Jesus. Nós, gostavamos que todo o mundo dê palmas aquando da sua passagem. A menoridade nunca está a moda, uma vez que a moda é precisamente fazer ( e ser) « como toda a gente ». Ah ! se de repente, por meio dum milagre qualquer, as multidões de hoje gritassem : « Bendito o que vem em nome do Senhor », em vez de : « Crucifica-O, crucifica-O »… Se, dum dia para outro os medias entoassem um hino em honra da Igreja Católica, como fizeram para o Abbé Pierre… Não é proibido desejar isso e rezar por isso. Mas era precso ver se o seu « Bendito aquele que vem » fosse motivado pelo acolhimento da salvação do pecado, ou pela ambição do benefício do consumidor. Pois, isso é muito conhecido : a religião, isso é que faz vender,… como as nádegas !

O Cardeal Newman, escrevia :
« Todo o conteúdo das Sagradas Escrituras, pois, leva-nos a crer que a sua verdade (a de Cristo) não receberá acolhimento caloroso pela maioria das pessoas, uma vez que vai contra a opinião pública e dos sentimentos partilhados por todos ; mesmo que fosse bem acolhida por um homem, seria recusada por aquilo que fica nele da sua natura antiga, exactamente como é recusada por todos os outros homens que não a acolheram. « A luz que resplendece nas trevas » (Jo 1,5) é sinal da religião verdadeira.

A última parte dessa citação lembra-nos que os primeiros a quem isso diz respeito, somos nós. Jesus é sempre posto na menoria, não só pela multidão dos homens, mas também no mais íntimo daqueles a quem se chama « fiéis », e pelo « homem velho » em cada um de nós. Por isso é que temos de desconfiar tanto dos nossos entusiasmos pessoais para com Jesus (que Jesus ? o dos nossos sonhos, ou aquele « que é, que era e que vem » ?) como que do entusiasmo efémero do povo… Cito Newman, mais uma vez :

« Mesmo que, sem dúvida, haja momentos em que um entusiasmo repentino jorra a fovor da verdade, uma popularidade destas não dura muito : acontece de repente e desaparece logo a seguir ; não conhece crescimento progressivo, nem duradouro. Só o erro cresce e é generosamente acolhido por um grande numero… Com efeito, a verdade tem um poder tão grande que pode obrigar o homem a proclamá-la em palavras ; mas quando este se prepara a agir, em vez de obedecer à verdade, substitui-a por um ídolo qualquer ».Segue então um trecho que se podia dizer de maneira textual a propósito daquilo que temos vivido em França depois da morte do Abbé Pierre, nestes últimos dias :

« Por conseguinte, num país, quando se fala muito em religião, quando se alegra por todo o mundo se ocupar dela, um espírito suficientemente sabio ficará inquieto por saber se, por acaso, não seriam a honrar qualquer substituto na vez dela ; se não são as ilusões do homen mais do que a verdade da palavra de Deus, que fazem nascer uma popularidade destas ; se a forma acolhida não tem como única verdade o que pode ser aceite pela razão e pela consiência ; em sumo, se não é Satanás tornado Anjo de Luz, em vez da própria Luz, que cria tantos discípulos. »

Newman, não é de admirar, era também um profeta cuja caridade foi desprezada. De qualquer maneira, Jesus, que veio para dar uma casa a todos os « SDF » (a do Pai), pão a todos os famintos (o da Palavra, da Eucaristia e da Vontade do Pai), a liberdade a todos os presos que somos (a liberdade interior dos filhos de Deus), aquele Jesus, os seus levaram-no « até à cima dum escarpamento da colina onde estaá construida a cidade, afim de o deitar abaixo ». Aquele Jesus, muitos exegetas de hoje reduzem-no ao Cristo da fé, mera invenção piedosa.


« No fim da nossa vida seremos julgados sobre o amor » (S. João da Cruz), repete-se muitas vezes. Mas de que amor é que se trata ? Com certeza que não se trata dum amor sem Jesus, nem dum amor contra a Igreja. (Porque será que um bispo, conhecido também ele, como não-conformista, se permitiu acusar a Igreja de tentar « recuperar » o Abbé Pierre quando falaceu ?) A caridade,devemo-la primeiro aos pobres que são Jesus e a Igreja, a sua Esposa. Todo o que poderemos fazer contra Ele e contra a Esposa dele, faremo-lo contra a caridade. Todo o que faremos sem Jesus e sem a Esposa dele é condenado a desaparecer, antes da fé da esperança até.

Na Igreja antiga, notava Bento XVI, a palavra « ortodoxia » não significava, de maneira alguma, a doutrina justa, mas autêntica adoração e glorificação de Deus ». E continua assim :
« Tinham a convicção de que tudo dependia do facto de ser justo na relação com Deus, de conhecer o que lhe agrada e como se pode responder de maneira justa. Por isso foi que Israel respeitou a Lei : ela mostrava a vontade de Deus ; indicava como viver com rectidão e como honrar a Deus de maneira justa : cumprindo a sua vontade, que faz reinar a ordem no mundo, abrindo-o à transcendência. Tratava-se de alegria nova dos cristãos que, a partir de Cristo, sabiam finalmente como é que Deus deve ser glorificado e como, deste modo, o mundo se torna justo. Durante a santa noite, os anjos tinham anunciado que as duas coisas andavam juntas : « Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade », foram as palavras deles (Lc 2,14). A glória de Deus e a paz na terra são inseparáveis. No lugar donde Deus é excluido, a paz esboroa-se na terra, e nenhuma ortopraxia sem Deus nos pode salvar. »

Ao ouvir as palavras do Evangelho de hoje, logo a seguir às de S.Paulo no seu hino à caridade, não se pode deixar de fazer uma pergunta difícil : porquê será que o Amor não é amado (S.Fr. de Assis) ? É pecisamente porque todo quanto se faz em nome do amor não é amor, mas só aparência de amor. É necessariamente porque todo o que é realmente feito em nome do amor não é reconhecido como sendo  amor.

Mais uma pergunta a qual não se escapa é esta : porquê o Amor será tão difícil a amar, porquê haverá tão pouca gente capaz de amar, e sobretudo : porquê será que nós próprios o amamos tão pouco ? Não será porque é difícil admitir que, até em nome do amor, deitamos para fora e precipitamos para baixo aquele que só tem o poder de nos abrir as portas da Casa do Pai ? No entanto, aqui está a Boa Nova : « Que sentido a palavra escrita : ‘A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular’ ? » (Lc 20,17)

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