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Praedicatho homélies à temps et à contretemps
Homélies du dimanche, homilies, homilieën, homilias. "C'est par la folie de la prédication que Dieu a jugé bon de sauver ceux qui croient" 1 Co 1,21

O é que vamos comer?

Walter Covens #homilias em português
16 TOB ev
 
 
Fiéis ao nosso princípio "ananas natureza", lembremo-nos de que estamos na "secção dos pães". Lembremo-nos também de que, entre o evangelho do domingo passado e o de hoje, uma parte do texto foi omitida.

       Entre os dois, São Marcos relata a morte de João Baptista no quadro dum banquete, organizado com aparato muito importante por Herodes , o qual "gostava de o ouvir … mas, a seguir, ficava muito embaraçado" (Mc, 6,20). Esse é mesmo o exemplo do "almoço mau". A comida daquele almoço é o fruto bichoso de quem aceita comer a Palavra de Deus, mas com a condição de que seja acompanhada pelos compromissos do mundo, no caso : o adultério. Esta é, como se diz em francês, a "mal-bouffe" (a comida muito detestável) no seu esplendor. Além disso, pormenor macabro, uma vez que ninguém pode servir dois donos ; Herodes acaba por servir à sua concubina a cabeça de João… "num prato". Bom apetite!

       Uma "chave de leitura" para o envio dos Doze em missão, como já vimos, é a referência ao jantar do Éxodo com Moisés, o pastor, e também ao facto de que o homem não vive só de pão mas de toda a palavra que saí da boca de Deus.

       Ao contrário do festim de Herodes, o regresso dos Doze (no evangelho deste dia) fica marcado pelo facto de que "nem tinham sequer o tempo de comer". De comer o quê? Jesus não tinha ordenado para não levar pão para o caminho (Mc, 6,8)? "Os Apóstolos reunem-se com Jesus, e dizem tudo quanto tinham feito e ensinado". Caso tivessemos de escolher um convite na casa de Herodes ou um convite na de Jesus e dos Doze, sabendo qual é a ementa nos dois casos, qual seria a nossa escolha? Essa não é uma pergunta vã. É uma escolha que devemos fazer continuamente. Faremos a escolha boa?

       No que diz respeito ao almoço de Jesus com os Doze, ainda estamos no "aperitivo"… Jesus disse-lhes: "Vinde à parte num local deserto, e descansai um pouco". Jesus tem compaixão em primeiro lugar daqueles que tinha enviado. A missão deles não foi um mero descanso. Aquela compaixão de Jesus para com os Doze será logo a seguir apagada pela piedade dele para com as multidões que chegam, tal como a simpatia de Herodes para com João o será pela sedução da filha de Herodiades ? As multidões haverão de desempenhar o papel de "desmancha-prazeres"? Os Apóstolos haverão de ser vítimas disso?

       Resposta: "Então, começou a instruí-los". Depois do aperitivo, eis o prato principal. S. Marcos não nos dá os pormenores da ementa, mas temos disso uma ideia bastante certa, graças a S.João (ch.6). No entanto, S. Marcos não se esquece de nos dar um detalhe: "Então, começou a instruí-los durante muito tempo" Até o próprio S. Francisco de Assis parece ter esquecido, ele que dizia aos seus discípulos para fazer "discursos breves, conforme o exemplo de Jesus que falou brevemente na sua vida terrena" (2a regra). Jesus pus-se a instruí-los não brevemente, mas sim durante muito tempo.

       Os Doze, apesar de estar cheios de fome e muito cansados, não perderam nada por ter que esperar. Pelo contrário, que pechincha! Graças à multidão que chega sem ter sido convidada, eles vão regalar-se muito mais do que previsto. A "sabedoria" do mundo diz "Ventre faminto não tem ouvidos". Herodes mostra-nos que é o contrário que é verdade, que é o ventre cheio que já não tem ouvidos. Para ouvir bem e saborear a Palavra de Deus, nada melhor do que um bom jejum! Jejuamos às sextas feiras todas para ter melhor apetite pela Palavra do domingo? Neste caso, "(o Senhor teu Deus) tornou-te humilde, fez com que tivesse fome, deu-te o mana que nem ti nem os teus pais tivestes conhecido, afim de te mostrar que o homem não vive só de pão, mas também de tudo quanto saí da boca de Deus" (Dt 8,3). Portanto o apetite é o melhor dos molhos.

       "Então, começou a instruí-los muito tempo". Parece-me que essa palavra do evangelho merece a nossa reflexão. Vivemos numa sociedade de abundância, "de consumo", e temos tão poucos ouvidos para a Palavra. Como dizia alguém: "Quando se escuta uma homilia, depois de poucos minutos, começamos a tussir". Temos férias, e aproveitamos… para escutar a Palavra de Deus ainda menos do que de costume. Os pobres, que nunca têm férias, que nem sabem sequer se poderão comer um bocadinho de pão ou uma malga de arroz antes da noite, eles escutam longamente aquele que os instrui longamente. E quando, impelidos por uma generosidade excepcional, nós os ricos, organizamos transportes de alimentos para levar às vítimas des guerras e das catástrofes, alguma comida de "primeira necessidade", os pobres, como sucedeu durante a guerra dos Balkãs, respondem-nos: "Obrigado, mas mandai-nos Bíblias" ". Isso é verdade! Mas temos esquecido!

       E hoje, como no tempo de Jesus, a maior pobreza, aquela que provocou a compaixão de Jesus, é mesmo o facto de "ser como ovelhas sem pastor". Não era a falta de pão, nem sequer a falta de Bííblias. Era a falta de pastores. Era a pobreza miserável do eunuco da Etiopia com a sua bíblia, no seu carro de luxo na estrada que desce de Jerusalém a Gaza. O Senhor teve piedade dele e mandou-lhe o diácono Filipe, um dos Sete escolhidos pelos Doze "para o serviço das refeições" (Ac 6,2). – Percebes, de verdade, o que estás a ler? – Como posso perceber se não está ninguém para me guiar?" (Ac 8,30-31). Não era normal os Doze deixar de ensinar "a Palavra de Deus para servir às mesas". Mas um dos Sete a quem os Doze tinam confiado esse serviço é enviado pelo "Anjo do Senhor" afim de anunciar a Palavra a um pagão… deixando de servir às mesas.

       Àquela pobreza, como é que podemos remediar? "Ouvi então a voz do Senhor que dizia: 'Quem mandarei? Quem será o nosso mensageiro?'" Eu respondi: 'Eu mesmo serei o teu mensageiro: manda-me'" (Is 6,8). Todos os anos, no domingo do "Bom Pastor" (4° Domingo da Páscoa), rezamos pelas vocações. Hoje, já teremos abandonado ? No entanto o Senhor não é surdo, nem de orelhas nem de coração: "Dar-lhes-ei pastores que os levarão, já não terão medo nem cansaço, nenhuma perder-se-á" (1a leitura) Então de que estamos à espera? O Senhor , Ele, está à espera dos nossos pedidos para nos dar. Se não pedimos nada, é porque não queremos nada, assim como os Samaritanos não queriam o profeta Amos: "Vai-te embora!", diziam eles (cf. Am 7,12-15).

       O Senhor convida-nos também para rezar com insistência pelos "pastores maus, que deixam morrer ou perder-se as ovelhas" (1a leitura), em vez de passar o nosso tempo a julgar e condena-los. "É verdade, escreve Chiara Lubich, fundadora dos Foccolari ( origem dos grupos de partilha da Palavra de Deus durante a Guerra) – que houve homens na história que não cumpriram dignamente a sua missão e até atraiçoaram o Evangelho, por gostarem mais da dignidade de que se sentiam revestidos do que do peso da sua responsabilidade: julgavam o seu papel mais como um poder do que como um serviço. Mas não seremos todos pecadores? Não deveremos antes de mais nada julgar-nos a nós mesmos? Se reflectimos nisso veremos os Apóstolos e os bispos, sucessores deles, com mais serenidade, porque perceberemos que a única vocação deles é ser Cristo. A maior parte dos ministros que Deus escolheu nos 20 séculos da Igreja procuraram certamente seguir esse exemplo. Se alguns se desviaram deste caminho, lembremo-nos de que Cristo, na terra, nem conseguiu evitar a traição de Judás. Cada homem foi criado livre".

       Quanto aos que julgam poder escutar a voz do Senhor no seu coração fora do ministério da Igreja, e aos defensores da "Scriptura sola" ( = "Só as Escrituras"), eles também merecem a nossa piedade, pois são vítimas do complexo "anti-pastores". Já se vêem no Céu, já chegados à santidade perfeita. Nada mais perigoso ! Certamente, a distinção entre a "economia" cristã e a "economia" judáica, é o facto de que Deus já não fala só fora: "Deus também fala no íntimo do coração; (mas) essa palavra deve ter a sua garantia e sua lei numa palavra exterior, no magistério eclesiástico." (D. Barsotti) Não seria essa a condição para uma paz verdadeira, não a do mundo, mas a de Jesus?
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